Que tipo de papa a Igreja precisa? As tensões internas da Igreja atual.

Leonardo Boff, teólogo e filósofo 

Não me proponho a apresentar um balanço do pontificado de Bento XVI, coisa que foi feita com competência por outros. Para os leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada Papa. A questão central é esta: qual a posição e qual a missão da Igreja no mundo?
Antecipamos dizendo que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos a Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco de espiritualização e de idealismo. Se demasiadamente próxima do mundo, incorre-se na tentação da mundanização e da politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra transcendente.
Como viver essa tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do testemunho e o do diálogo.
O modelo do testemunho afirma com convicção: temos o depósito da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias para a salvação; temos os sacramentos, que comunicam graça; temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira; temos o Papa, que goza de infalibilidade em questões de fé e moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isso tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há salvação.
Os cristãos desse modelo, desde Papas até os simples fiéis, se sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a conversão e é um gesto de civilidade.
O modelo do diálogo parte de outros pressupostos: o Reino é maior do que a Igreja e conhece também uma realização secular, sempre onde há verdade, amor e justiça; o Cristo ressuscitado possui dimensões cósmicas e empurra a evolução para um fim bom; o Espírito está sempre presente na história e nas pessoas do bem; Ele chega antes do missionário, pois estava nos povos na forma de solidariedade, amor e compaixão. Deus nunca abandonou os seus e a todos oferece chance de salvação, pois os tirou de seu coração para um dia viverem felizes no Reino dos libertos. A missão da Igreja é ser sinal dessa história de Deus dentro da história humana e um instrumento de sua implementação junto com outros caminhos espirituais. Se a realidade tanto religiosa quanto secular está empapada de Deus devemos todos dialogar: trocar, aprender uns dos outros e tornar a caminhada humana rumo à promessa feliz, mais fácil e mais segura.
O primeiro modelo do testemunho é da Igreja da tradição, que promoveu as missões na África, na Ásia e na América Latina, sendo até cúmplice em nome do testemunho da dizimação e dominação de muitos povos originários, africanos e asiáticos. Era o modelo do Papa João Paulo II que corria o mundo, empunhando a cruz como testemunho de que aí vinha a salvação. Era o modelo, mais radicalizado ainda, de Bento XVI, que negou o título de “Igreja” às igrejas evangélicas, ofendendo-as duramente; atacou diretamente a modernidade, pois a via negativamente como relativista e secularista. Logicamente não lhe negou todos os valores, mas via neles como fonte a fé cristã. Reduziu a Igreja a uma ilha isolada ou a uma fortaleza, cercada de inimigos por todos os lados contra os quais importa se defender.
O modelo do diálogo é do Concílio Vaticano II, de Paulo VI e de Medellin e de Puebla na América Latina. Viam o cristianismo não como um depósito, sistema fechado com o risco de ficar fossilizado, mas como fonte de águas vivas e cristalinas que podem ser canalizadas por muitos condutos culturais, um lugar de aprendizado mútuo porque todos são portadores do Espírito Criador e da essência do sonho de Jesus.
O primeiro modelo, do testemunho, assustou muitos cristãos, que se sentiam infantilizados e desvalorizados em seus saberes profissionais; não sentiam mais a Igreja como um lar espiritual e, desconsolados, se afastavam da instituição, mas não do Cristianismo como valor e utopia generosa de Jesus.
O segundo modelo, do diálogo, aproximou a muitos, pois se sentiam em casa, ajudando a construir uma Igreja-aprendiz e aberta ao diálogo com todos. O efeito era o sentimento de liberdade e de criatividade. Assim vale a pena ser cristão.
Esse modelo do diálogo se faz urgente caso a instituição-Igreja queira sair da crise em que se meteu e que atingiu seu ponto de honra: a moralidade (os pedófilos), a espiritualidade, a falta de transparência (roubo de documentos secretos e outros problemas graves no Banco do Vaticano), e a perda de fiéis, sobretudo entre a juventude.
Devemos discernir com inteligência o que atualmente melhor serve à mensagem cristã no interior de uma crise ecológica e social de gravíssimas consequências. O problema central do mundo não é a Igreja (cada vez mais europeia e branca), mas o futuro da Mãe Terra, da vida e da nossa civilização. Como a Igreja ajuda nessa travessia? Só dialogando e somando forças com todos.

Leonardo Boff é autor de Igreja: carisma e poder, livro ajuizado pelo então então cardeal Joseph Ratzinger.

ps: a perseguição rendeu ao então frei Leonardo Boff um ano de “silêncio obsequioso”, ou seja, durante um ano não pôde escrever, dar aulas e palestras. Além disso, chamado a Roma, frei Leonardo foi colocado, em seu interrogatório, na mesma cadeira na qual se sentou Galileu Galilei, no início do século 17 (por volta de 1611), condenado como herege por defender as ideias de Copérnico (heliocentrismo, o Sol como centro do Universo, e não mais as de Aristóteles, como a Terra sendo o centro do Universo).

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Mino Carta e “A imbecilização do Brasil”- Editorial da Carta Capital, 1º/2/2013

“Creio que a Globo ocupe a vanguarda desta operação de imbecilização coletiva, de espectro infindo”

Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre. Há muito tempo o Brasil não produz pintores como Candido Portinari. Há muito tempo o Brasil não produz historiadores como Raymundo Faoro. Há muito tempo o Brasil não produz polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues. Há muito tempo o Brasil não produz jornalistas como Claudio Abramo, e mesmo repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira. Há muito tempo…
Os derradeiros, notáveis intérpretes da cultura brasileira já passaram dos 60 anos, quando não dos 70, como Alfredo Bosi ou Ariano Suassuna ou Paulo Mendes da Rocha. Sobra no mais um deserto de oásis raros e até inesperados. Como o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça, que acaba de ser lançado, para os nossos encantos e surpresa.
Nos últimos dez anos o País experimentou inegáveis progressos econômicos e sociais, e a história ensina que estes, quando ocorrem, costumam coincidir com avanços culturais. Vale sublinhar, está claro, que o novo consumidor não adquire automaticamente a consciência da cidadania. Houve, de resto, e por exemplo, progressos em termos de educação, de ensino público? Muito pelo contrário.
E houve, decerto, algo pior, o esforço concentrado dos senhores da casa-grande no sentido de manter a maioria no limbo, caso não fosse possível segurá-la debaixo do tacão. Neste nosso limbo terrestre a ignorância é comum a todos, mas, obviamente, o poder pertence a poucos, certos de que lhes cabe por direito divino. Indispensável à tarefa, a contribuição do mais afiado instrumento à disposição, a mídia nativa. Não é que não tenha servido ao poder desde sempre. No entanto, nas últimas décadas cumpriu seu papel destrutivo com truculência nunca dantes navegada.
Falemos, contudo, de amenidades do vídeo. De saída, para encaminhar a conversa. Falemos do Big Brother Brasil, das lutas do MMA e do UFC, dos programas de auditório, de toda uma produção destinada a educar o povo brasileiro, sem falar das telenovelas, de hábito empenhadas em mostrar uma sociedade inexistente, integrada por seres sem sombra. Deste ponto de vista, a Globo tem sido de uma eficácia insuperável.
O espetáculo de vulgaridade e ignorância oferecido no vídeo não tem similares mundo afora, enquanto eu me colho a recordar os programas de rádio que ouvia, adolescente, graciosas, adoráveis peças de museu, como a PRK30, ou anos verdolengos habitados pelos magistrais shows de Chico Anysio. Cito exemplos, mas há outros. Creio que a Globo ocupe a vanguarda dessa operação de imbecilização coletiva, de espectro infindo, na sua capacidade de incluir a todos, do primeiro ao último andar da escada social.
O trabalho da imprensa é mais sutil, pontiagudo como o buril do ourives. Visa à minoria, além dos donos do poder-real, que, além do mais, ditam o pensamento único, fixam-lhe os limites e determinam suas formas de expressão. O alvo é a chamada classe média alta, os aspirantes, a segunda turma da classe A, o creme que não chegou ao creme do creme. E classe B também. Leitores, em primeiro lugar, dos editoriais e colunas destacadas dos jornalões, e da Veja, a inefável semanal da Editora Abril. Alguns remediados entram na dança, precipitados na exibição, de verdade inadequada para eles.
Aqui está a buchado canhão midiático. Em geral, fiéis da casa-grande encarada como meta de chegada radiosa, mesmo quando ancorada, em termos paulistanos, às margens do Rio Pinheiros, o formidável esgoto ao ar livre. E, em geral, inabilitados ao exercício do espírito crítico. Quem ainda o pratica, passa de espanto a espanto, e o maior, se admissível a classificação, é que os próprios editorialistas, colunistas, articulistas etc. etc. acabem por acreditar nos enredos ficcionais tecidos por eles próprios, quando não nas mentiras assacadas com heroica impavidez.
O deserto cultural em que vivemos tem largas e evidentes explicações, entre elas, a lassidão de quem teria condições de resistir. Agrada-me, de todo modo, o relativo otimismo de Alfredo Bosi, que enriquece esta edição. Mesmo em épocas medíocres pode medrar o gênio, diz ele, ainda que isto me lembre a Península Ibérica, terra de grandes personagens solitárias em lugar de escolas do saber. Um músico e poeta italiano do século passado, Fabrizio de André, cantou: “Nada nasce dos diamantes, do estrume nascem as flores”. E do deserto?

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Apreensão no campo – dom Tomás Balduíno, publicado na Folha de S.Paulo, 23 de janeiro de 2013

Eis o quadro: o pequeno agricultor Juarez Vieira foi despejado de sua terra, em 2002, no município tocantinense de Campos Lindos, por 15 policiais em manutenção de posse acionada por Kátia Abreu. Juarez desfilou, sob a mira dos militares, com sua mulher e seus dez filhos, em direção à periferia de alguma cidade.
O caso acima não é isolado. O governador Siqueira Campos decretou de “utilidade pública”, em 1996, uma área de 105 mil hectares em Campos Lindos. Logo em 1999, uns fazendeiros foram aí contemplados com áreas de 1,2 mil hectares, por R$ 8 o hectare. A lista dos felizardos fora preparada pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins, presidida por Kátia Abreu (PSD-TO), então deputada federal pelo ex-PFL.
O irmão dela, Luiz Alfredo Abreu, conseguiu uma área do mesmo tamanho. Emiliano Botelho, presidente da Companhia de Promoção Agrícola, ficou com 1,7 mil hectares. Juarez não foi o único injustiçado. Do outro lado da cerca, ficaram várias famílias expulsas das terras por elas ocupadas e trabalhadas havia 40 anos. Uma descarada grilagem!
Campos Lindos, antes realmente lindos, viraram uma triste monocultura de soja, com total destruição do cerrado para o enriquecimento de uma pequena minoria. No Mapa da Pobreza e Desigualdade divulgado em 2007, o município apareceu como o mais pobre do país. Segundo o IBGE, 84% da população vivia na pobreza, dos quais 62,4% em estado de indigência.
Outro irmão da senadora Kátia Abreu, André Luiz Abreu, teve sua empresa envolvida na exploração de trabalho escravo. A Superintendência Regional de Trabalho e Emprego do Tocantins libertou, em áreas de eucaliptais e carvoarias de propriedade dele, 56 pessoas vivendo em condições degradantes, no trabalho exaustivo e na servidão por dívida.
Com os povos indígenas do Brasil, Kátia Abreu, senadora pelo Estado do Tocantins e presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), tem tido uma raivosa e nefasta atuação.
Com efeito, ela vem agindo junto ao governo federal para garantir que as condicionantes impostas pelo Supremo no julgamento da demarcação da área indígena Raposa Serra do Sol sejam estendidas, de qualquer forma, aos demais procedimentos demarcatórios.
Com a bancada ruralista, ela pressionou a Advocacia-Geral da União (AGU), especialmente o ministro Luís Inácio Adams. Prova disso foi a audiência na AGU, em novembro de 2011, na qual entregou, ao lado do senador Waldemir Moka (PMDB-MS), documento propondo a criação de norma sobre a demarcação de terras indígenas em todo o país.
O ministro Luís Adams se deixou levar e assinou a desastrosa portaria nº 303, de 16/7/12. Kátia Abreu, ao tomar conhecimento desse ato, desabafou exultante: “Com a nova portaria, o ministro Luís Adams mostrou sensibilidade e elevou o campo brasileiro a um novo patamar de segurança jurídica”.
Até mesmo com relação à terra de posse imemorial do povo xavante de Marãiwatsèdè, ao norte do Mato Grosso, que ganhou em todas as instâncias do Judiciário o reconhecimento de que são terras indígenas, Kátia Abreu assinou nota, como presidente da CNA, xingando os índios de “invasores”.
Concluindo, as lideranças camponesas e indígenas estão muito apreensivas com o estranho poder econômico, político, classista, concentracionista e cruel detido por essa mulher que, segundo dizem, está para ser ministra de Dilma Rousseff. E se perguntam: “Não é isso o Poder do Mal?”. No Evangelho, Jesus ensinou aos discípulos a enfrentar o Poder do Mal, recomendando-lhes: “Esta espécie de Poder só se enfrenta pela oração e pelo jejum” (Cf. Mt 17,21).
Paulo Balduíno de Sousa Décio, dom Tomás Balduino, tem 90, é mestre em teologia, é bispo emérito da cidade de Goiás e conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra.


PAULO BALDUINO DE SOUSA DÉCIO, dom Tomás Balduino, 90, mestre em teologia, é bispo emérito da cidade de Goiás e conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra

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Dez coisas que precisamos saber sobre a fome em 2013

Lista compilada pelo Programa Mundial de Alimentos, da ONU, sugere que a fome é o maior problema solucionável do mundo.

A matéria é de Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU.

As Nações Unidas publicaram uma lista sobre as 10 coisas que todos devemos saber a respeito da fome neste novo ano.

Confiram abaixo os tópicos compilados pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA:

1. O mundo tem cerca de 870 milhões de pessoas que não têm o necessário para comer para levar uma vida saudável. Isso significa que uma em cada oito habitantes do globo vai para a cama, todos os dias, passando fome (Fonte: FAO, 2012).

2. O número de pessoas vivendo com fome crônica baixou para 130 milhões nas últimas duas décadas. Nos países em desenvolvimento, a prevalência da má nutrição caiu de 23,2% para 14,9% no período de 1990-2010 (Fonte: FAO, 2012).

3. A maioria do progresso contra a fome foi alcançado antes de 2007/2008, quando ocorreu a crise econômica global. Desde então, os avanços na redução do problema foram desacelerados e estagnados (Fonte: FAO, 2012).

4. A fome é o problema número 1 na lista dos 10 maiores riscos de saúde. Ela mata mais pessoas todos os anos que doenças como aids, malária e tuberculose combinadas (Fonte: Unaids, 2010. OMS, 2011).

5. A má nutrição está ligada a um terço da morte de crianças com menos de cinco anos nos países em desenvolvimento.

6. Os primeiros mil dias da vida de uma criança, da gravidez aos dois anos de idade, são fundamentais para o combate à má nutrição. Uma dieta apropriada, nessa época da vida, protege os menores de nanismos físico e mental, que podem resultar da má nutrição.

7. Custa apenas 25 centavos de dólar americano, por dia, garantir que uma criança tenha acesso a todas os nutrientes e vitaminas necessários ao crescimento saudável.

8. Se mulheres, nas áreas rurais, tiverem o mesmo acesso à terra, à tecnologia, à educação, ao mercado e aos serviços financeiros que os homens têm, o número de pessoas com fome poderia diminuir entre 100 e 150 milhões (Fonte: FAO, 2011).

9. Até 2050, as mudanças climáticas e os padrões irregulares da temperatura terão colocado mais 24 milhões de pessoas em situação de fome. Quase metade dessas crianças estará vivendo na África Subsaariana (Fonte: PMA, 2009).

10. A fome é o maior problema solucionável do mundo.

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O Haiti existe? – Frei Betto

(não tenho a data deste artigo, mas certamente foi escrito pouco depois do terremoto, cujo aniversário de três anos está sendo lembrado neste mês de janeiro de 2013)

Interessados em exibir na Europa uma coleção de animais exóticos, no início do século XIX, dois franceses, os irmãos Edouard e Jules Verreaux, viajaram à África do Sul. A fotografia ainda não havia sido inventada, e a única maneira de saciar a curiosidade do público era, além do desenho e da pintura, a taxidermia, empalhar animais mortos, ou levá-los vivos aos zoológicos.

No museu da família Verreaux os visitantes apreciavam girafas, elefantes, macacos e rinocerontes. Para a família, não poderia faltar um negro. Os irmãos aplicaram a taxidermia ao cadáver de um e o expuseram, de pé, numa vitrine de Paris; tinha uma lança numa das mãos e um escudo na outra.

Ao falir o museu, os Verreaux venderam a coleção. Francesc Darder, veterinário catalão, primeiro diretor do zoológico de Barcelona, arrematou parte do acervo, incluído o africano. Em 1916, abriu seu próprio museu em Banyoles, na Espanha.

Em 1991, o médico haitiano Alphonse Arcelin visitou o Museu Darder. O negro reconheceu o negro. Pela primeira vez, aquele morto mereceu compaixão. Indignado, Arcelin pôs a boca no mundo, às vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona. Conclamou os países africanos a sabotarem o evento. O próprio Comitê Olímpico interveio para que o cadáver fosse retirado do museu.

Terminadas as Olimpíadas, a população de Banyoles voltou ao tema. Muitos insistiam que a cidade não deveria abrir mão de uma tradicional peça de seu patrimônio cultural. Arcelin mobilizou governos de países africanos, a Organização para a Unidade Africana, e até Kofi Annam, então secretário-geral da ONU. Vendo-se em palpos de aranha, o governo Aznar decidiu devolver o morto à sua terra de origem. O negro foi descatalogado como peça de museu e, enfim, reconhecido em sua condição humana. Mereceu enterro condigno em Botswana.

Em meus tempos de revista “Realidade”, nos anos 60, escandalizou o Brasil a reportagem de capa que trazia, como título, “O Piauí existe.” Foi uma forma de chamar a atenção dos brasileiros para o mais pobre Estado do Brasil, ignorado pelo poder e opinião públicos.

O terremoto que arruinou o Haiti nos induz à pergunta: o Haiti existe? Hoje, sim. Mas e antes de ser arruinado pelo terremoto? Quem se importava com a miséria daquele país? Quem se perguntava por que o Brasil enviou para lá tropas a pedido da ONU? E agora, será que a catástrofe – a mais terrível que presencio ao longo da vida – é mera culpa dos desarranjos da natureza? Ou de Deus, que se mantém silencioso frente ao drama de milhares de mortos, feridos e desamparados?

Colonizado por espanhóis e franceses, o Haiti conquistou sua independência em 1804, o que lhe custou um duro castigo: os escravagistas europeus e estadunidenses o mantiveram sob bloqueio comercial durante 60 anos.

Na segunda metade do século XIX e início do XX, o Haiti teve 20 governantes, dos quais 16 foram depostos ou assassinados. De 1915 a 1934 os EUA ocuparam o Haiti. Em 1957, o médico François Duvalier, conhecido como Papa Doc, elegeu-se presidente, instalou uma cruel ditadura apoiada pelos tonton macoutes (bichos-papões) e pelos EUA. A partir de 1964, tornou-se presidente vitalício… Ao morrer em 1971, foi sucedido por seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que governou até 1986, quando se refugiou na França.

O Haiti foi invadido pela França em 1869; pela Espanha em 1871; pela Inglaterra em 1877; pelos EUA em 1914 e em 1915, permanecendo até 1934; pelos EUA, de novo, em 1969.

As primeiras eleições democráticas ocorreram em 1990; elegeu-se o padre Jean-Bertrand Aristide, cujo governo foi decepcionante. Deposto em 1991 pelos militares, refugiou-se nos EUA. Retornou ao poder em 1994 e, em 2004, acusado de corrupção e conivência com Washington, exilou-se na África do Sul. Embora presidido hoje por René Préval, o Haiti é mantido sob intervenção da ONU e agora ocupado, de fato, por tropas usamericanas.

Para o Ocidente “civilizado e cristão”, o Haiti sempre foi um negro inerte na vitrine, empalhado em sua própria miséria. Por isso, a mídia do branco exibe, pela primeira vez, os corpos destroçados pelo terremoto. Ninguém viu, por TV ou fotos, algo semelhante na Nova Orleans destruída pelo furacão ou no Iraque atingido pelas bombas. Nem mesmo após a passagem do tsunami na Indonésia.

Agora, o Haiti pesa em nossa consciência, fere nossa sensibilidade, arranca-nos lágrimas de compaixão, desafia a nossa impotência. Porque sabemos que se arruinou, não apenas por causa do terremoto, mas sobretudo pelo descaso de nossa dessolidariedade.

Outros países sofrem abalos sísmicos e nem por isso destroços e vítimas são tantos. Ao Haiti enviamos “missões de paz”, tropas de intervenção, ajudas humanitárias; jamais projetos de desenvolvimento sustentável.

Findas as ações emergenciais, quem haverá de reconhecer o Haiti como nação soberana, independente, com direito à sua autodeterminação? Quem abraçará o exemplo da dra. Zilda Arns, de ensinar o povo a ser sujeito multiplicador e emancipador de sua própria história?

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.

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Não somos classe média, não somos morenos

Ramatis Jacino – historiador e presidente do INSPIR- Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial

Os 350 anos de escravidão e 124 de discriminação racial condenaram à marginalização econômica e social a esmagadora maioria dos descendentes de escravizados no Brasil. À exclusão somou-se uma série de adjetivos para justificar a escravidão e o racismo. Negro, no Brasil, tornou-se sinônimo de criminoso, desonesto, ocioso, ignorante, imoral etc. Por outro lado, os poucos que, driblando as colossais barreiras impostas pelo racismo, conquistam alguma ascensão social, são imediatamente “promovidos” a morenos, mulatos e escurinhos. Ou seja, ao negro são creditados tantos atributos negativos que o simples fato de sair da marginalidade exige sua reclassificação étnica. O senso comum, que desde o final do século XIX evitar qualificar como negros os afrodescendentes considerados incluídos, é decorrente da secular ideologia que se propõe a “branquear” e integrar à sociedade – de forma subalterna – uma pequena minoria, de maneira a legitimar a exclusão da maioria.
A caracterização de classe operária ou classe média para um determinado grupo social não deve estar delimitada apenas pelo seu poder aquisitivo. O papel que cada um desempenha na produção das mercadorias que – negociadas no mercado – geram lucro, apropriado por aqueles que se tornaram donos dos meios de produção, é o principal fator de classificação de cada grupo no interior da sociedade capitalista. Um torneiro mecânico ou ferramenteiro de uma grande montadora do ABC recebe um salário superior ao de um professor da rede pública do Estado de São Paulo. Todavia, o primeiro continua membro da classe operária e o segundo da classe média. Assim como integram o conceito amplo de classe operária os trabalhadores em serviços, no sistema financeiro, no comércio, na construção civil, e não apenas aqueles que operam as indústrias. No Brasil, as condições de vida e trabalho da maioria da classe operária, até a última década, assemelhavam-se às condições vividas pelos trabalhadores europeus do século XIX. A partir da derrota do neoliberalismo, em 2003, com o início de uma nova fase econômica e social no País, a classe operária brasileira apenas se aproximou da condição econômica dos trabalhadores europeus no século XX. Considerá-los classe média, além de impreciso, significa creditar-lhes o mesmo perfil ideológico e as mesmas demandas da clássica classe média.
Vivemos em um país onde raça e classe são coincidentes. A imensa maioria da classe operária é composta de negros, a totalidade da classe dominante e a grande maioria da classe média são brancas. Nominar os operários, que agora consomem, de “nova classe média”, e os negros com pequena ascensão social de “morenos”, são duas vertentes da mesma concepção ideológica, matriz dos instrumentos de cooptação que supervalorizam a mobilidade social individual em detrimento da coletiva.
Estamos experimentando um processo inédito de melhora geral das condições de vida da classe operária em nosso País. Essa melhora, objetivamente, é resultado da ação dessa própria classe, que há três décadas retomou os sindicatos dos interventores da ditadura, organizou federações, confederações e centrais sindicais, ombreou-se com os movimentos sociais, criou ou foi participar de partidos de esquerda e elegeu governantes que implementaram políticas econômicas e sociais que redundaram nessa espetacular ascensão social. Quem levou o País a ser governado por um partido de orientação socialista, quem construiu a nova agenda que se contrapôs ao neoliberalismo e quem, agora, colhe os frutos do que semeou, é a classe operária.
Chamá-los de “nova classe média” é negar a história recente, é pasteurizar a luta, é despolitizá-la como classe. É mascarar as contradições de classe, pois todos estariam igualados (e irmanados) pela oportunidade de acesso ao consumo. Negar sua condição de classe operária, majoritariamente negra, significa deslegitimar as tradicionais organizações de massa, protagonistas das mudanças operadas na última década. É considerar que as igrejas, as entidades filantrópicas, de profissionais liberais, as ONGs e as associações de consumidores dão conta de atender a suas demandas. É permitir que a mídia, em sua cotidiana tentativa de usurpar a representação social, se arvore porta-voz desse grupo, objetivando sua domesticação, despolitização, branqueamento e incorporação a um projeto político conservador.
O imenso contingente de pessoas que obtiveram significativas melhorias em sua vida ao longo dos governos Lula e Dilma compõe uma parte da sociedade que está protagonizando profundas mudanças sociais e políticas no País, utilizando os tradicionais instrumentos de organização classista. Essa classe é constituída, em sua maioria, por homens e mulheres negros, herdeiros de um legado de luta de quatro séculos e de uma cultura ancestral que remonta à Antiguidade. Compreender o caráter dos 40 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, resgatados da marginalidade na última década, tem como consequência a reafirmação da legitimidade das históricas representações e formas de organização do povo brasileiro: os movimentos sociais, as organizações de luta contra a discriminação racial, o movimento sindical. Não é coincidência o constante ataque, tentativas de criminalização e deslegitimação dos movimentos sociais, por setores do Poder Judiciário, alguns governos estaduais e a grande mídia, porta-vozes dos interesses do poder econômico, que fazem parte da mesma estratégia de branquear e “carimbar” como classe média a maioria dos trabalhadores brasileiros. Reafirmarmos nossa identidade étnica e a classe social a que pertencemos é fundamental para a resistência à cooptação ideológica.

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Impresso ainda é melhor meio de estimular a leitura

(texto distribuído pela Escola Arvoredo, na qual estuda meu filho mais novo, Luís Henrique; é uma alegria saber que as crianças têm contato com esse tipo de abordagem; desconheço a autoria do texto, mas procurarei saber)

As histórias em quadrinhos foram o ponto de partida para que a produtora musical Magali Romboli transformasse a filha em uma leitora assídua. Nada de tablets, computadores e outros estímulos eletrônicos –Melissa Romboli Andriole, 9 anos, ainda prefere passar horas folheando as páginas de um livro. “É muito mais legal do que brinquedo”, garante. Mãe e filha não são exceção: na hora de introduzir as crianças ao mundo da leitura, muitos pais abrem mão da tecnologia e continuam recorrendo ao tradicional impresso, medida apoiada por especialistas.
Magali conta que começou a estimular a filha ainda bebê, com livros de plástico para brincar na banheira. Aos poucos, o passatempo deu lugar a gibis e livros de história. Recorrer ao impresso foi uma das maneiras que encontrou para evitar que Melissa passasse o dia todo em frente ao computador e à televisão. “Talvez essas ferramentas não façam mal agora, mas como saber seu efeito quando ela tiver 50 anos?”, questiona.
A preocupação com a saúde não é o único motivo pelo qual o impresso reina na casa da família. Segundo Magali, uma das grandes vantagens do livro em papel é a possibilidade de compartilhar histórias. De tempos em tempos, elas doam alguns exemplares para crianças carentes. “A Melissa pega livros emprestados da escola, leva o que está lendo em casa, comenta com colegas e com a professora. No tablet, você baixa o arquivo, outra pessoa baixa outro. Não é uma relação entre pessoas, é uma relação entre tecnologias”.
Segundo o professor Marcelo Barra, do Centro de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, o livro impresso continua decisivo na formação de crianças e jovens. “Por ter muito mais estímulos, a mídia eletrônica dispersa quem está começando a ler. O saber e a profundidade são maiores no livro convencional”. O professor explica que as possibilidades abertas pelo tablet podem estimular a criança a buscar novos conteúdos, em vez de se ater àquilo que está lendo. “O resultado é um conhecimento superficial. Os eletrônicos são uma raiz muito longa, mas não muito profunda. Eles são complementares. Nessa fase, incentivar a leitura a partir do impresso é o melhor meio de desenvolver a concentração”.

Férias são uma boa época

Aproveitar o tempo livre é uma boa saída para desenvolver o gosto pelas obras literárias. Vale recorrer das séries infantis ao gibi, aliado de Magali na formação da filha. “A linguagem objetiva das historinhas da Turma da Mônica ajudou Melissa no início. Depois, para melhorar o repertório, pegamos livrinhos de histórias”.
O momento é bom ainda para fazer passeios culturais. “A melhor coisa é levar os filhos às livrarias, que cada vez mais têm seções voltadas a crianças e adolescentes. Lá, devem ajudá-las a escolher seus próprios livros”, aconselha o professor. As bibliotecas públicas podem estar no roteiro de férias. O professor Marcelo Barra acrescenta: “Os pais devem dar o exemplo. É muito mais fácil a criança gostar de ler se ela está acostumada a ver os pais lendo”.
Outra alternativa para o período e que pode ser levada adiante durante o ano todo são as rodas de histórias. Reunir a família é uma das melhores formas de instigar a curiosidade dos pequenos. O ambiente familiar é muito rico e influencia intensamente a formação da criança.

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