Edílson Cazeloto

edilson

Professor da Cásper Líbero, o jornalista sentencia: “A vida digital é uma amputação da vida física”. E explica por quê.

– Onde você nasceu?

– Nasci no dia 4 de janeiro de 1971, em São Paulo, capital, no Hospital do Servidor Público Municipal. Tenho, portanto, 42 anos. Sou casado com Giuliana Capello Cazeloto.

– Estudos, profissão e atividade atual?

– Sou radialista e jornalista, formado pela Cásper Líbero em 1995. Mestrado e Doutorado em Comunicação e Semiótica na PUC/SP. Estágio de Pós-Doutorado na UFRJ. Autor de “Inclusão Digital: uma visão crítica”, Editora SENAC, 2008.

– O que faz hoje, profissionalmente?

– Professor do programa de pós-graduação em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero.

– Do que trata o livro, Edílson?

– O livro é um estudo teórico que busca desmistificar os programas de inclusão digital mantidos pelo governo ou por instituições da sociedade civil. Tento demonstrar que esses programas se justificam e legitimam pela ideia de uma relação direta entre inclusão digital e inclusão social. A inclusão social, por sua vez, é vista por três ângulos: a) geração de emprego e renda; b) acesso à cultura; c) acesso aos serviços estatais. O que ocorre é que, quando analisados de perto, nenhum desses pilares se sustenta. A inclusão digital é, portanto, mais uma estratégia de renovação da exploração capitalista do que uma forma de desenvolver a autonomia dos cidadãos.

– De onde vem o seu interesse por essa linha de pesquisa?

– Eu pesquiso as relações entre tecnologias digitais, comunicação e sociedade. Interessei-me pelo tema ainda no mestrado porque, já no começo do século XXI, as tecnologias digitais eram vistas como uma espécie de panaceia, capazes de resolver (ou colaborar para a solução) as mazelas de nossa sociedade. Não era o que eu via acontecendo no “mundo real”. Como já havia trabalhado com informática, tinha uma proximidade técnica com esse universo e resolvi conhecê-lo mais profundamente. No mestrado, estudei a noção de “democracia” na internet; no doutorado, resolvi olhar para a “sociedade civil”, debruçando-me sobre o tema da inclusão digital. Como respondi antes, há uma espécie de consenso em torno das virtudes da informática em promover a inclusão social. O que percebi é que isso é apenas um discurso “publicitário”, de promoção dos próprios meios digitais.

– Qual a sua análise, portanto, sobre a atual situação das relações baseadas na internet?

– A vida digital é uma amputação da vida física. No digital, não nos relacionamos com o mundo da experiência concreta, mas com imagens, simulações, abstrações. Esse mundo é feito sob medida para as novas formas de exploração do capitalismo contemporâneo, cada vez mais faminto de informações (que dificilmente se transformam em conhecimento). O fato é que esse estado de coisas não existe por si só, nem por vontade divina. Nós construímos esse mundo, a partir das relações sociais que inventamos e sustentamos com nossas práticas cotidianas. Por isso, a crítica é necessária: ela aponta as tensões e os problemas que passam despercebidos pela consciência do dia a dia e, ao fazer isso, permite que se vejam fissuras, brechas a partir das quais é possível construir a utopia de uma nova forma de organização do social.

– Outro assunto. Você mora em uma ecovila, na cidade de Piracaia. Fale sobre essa mudança, por favor.

– Fui para a ecovila para vivenciar no cotidiano minhas opiniões e crenças a respeito da sociedade. Criticar é um ponto de partida, mas não de chegada. Eu queria experimentar novas formas de relacionamento social baseadas na autonomia, na experiência concreta do corpo, na solidariedade, em outros padrões tecnológicos e outros saberes. Enfim, queria ir além da teoria e transformar minha própria vida num laboratório dessa outra organização social possível. Não é possível querer mudar o mundo e continuar dependendo do Pão de Açúcar para se alimentar. Não é possível criticar o padrão monocultural da informática sem se apropriar de outras tecnologias. Por isso, a ecovila não é uma ruptura, mas uma extensão da minha visão de mundo e da sociedade.
A Giuliana chegou ao mesmo ponto por outros caminhos, mas essa é uma história que só ela pode contar. Morar em uma ecovila, para mim, é construir possibilidades.

– Peço que cite dois ou três livros/artigos/filmes – dessa linha de trabalho – inclusão digital – e em relação à vida em ecovila, sustentabilidade etc.

– Recomendo dois filmes: “A corporação” e “Gattaca, a experiência genética”. Para livros, vou recomendar um autor pouco conhecido: Serge Latouche, um dos principais expoentes da ética do decrescimento. Outro livro bacana é “Perca tempo”, de Ciro Marcondes Filho.

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