O mundo gira, a Lusitana roda, e o preservativo continua sendo o método mais eficaz de prevenção

A  psicóloga Elizabeth, em Cunene, Angola.

 

– Os dados iniciais, por favor, Elizabeth.

– Meu nome completo é Elizabeth Cristina da Silva Fernandes. Estudei em escola pública no ensino fundamental, e no ensino médio no Colégio Marista São José. Fiz Psicologia na Faculdade de Humanidades Pedro II, e sou psicanalista com formação na Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro. Nasci no dia 18 de outubro de 1959, no Rio de Janeiro. 
 

– Quando começou a trabalhar como psicóloga?

– Comecei meu trabalho assim que me formei, isso em 1981, como psicóloga, participando de um grupo de acompanhamento terapêutico que tinha como objetivo acompanhar em casa pacientes com patologias graves em surto. Era um trabalho com suporte do médico e de medicamentos, com a finalidade de não internar os pacientes. Eles eram tratados em casa por uma equipe de psicólogos que se revezavam em turnos. Essa modalidade era eficaz porque, além de tratá-los em seu meio familiar, se oferecia às famílias um modelo de relação diferente com a pessoa que estava em crise. Paralelamente a isso iniciei os atendimentos em meu consultório particular.
 
 – E o trabalho com aids?

Meu trabalho com aids iniciou-se em 2004, quando participei de um curso para ser aconselhadora em prevenção às DST/HIV/aids. Ser aconselhadora implica trabalhar questões subjetivas sobre a sexualidade das pessoas para ofertar a testagem diagnóstica para o HIV e prepará-la para o resultado desse exame, que certamente mudará sua vida para sempre. Como psicóloga/psicanalista era uma tarefa fácil para mim, e desde então venho exercendo essa função.
 

– Por que se interessou pelo assunto?

O interesse se deveu principalmente à convivência com o meu marido, que trabalha e milita na luta contra o avanço da epidemia de aids desde 1988. A convivência com ele e com os amigos, e a participação em vários eventos me levaram a aderir à luta ao enfrentamento dessa epidemia, que continua nos preocupando bastante.
– O que faz hoje?

– Atualmente continuo atendendo como psicanalista em meu consultório, e trabalho como consultora na Gerência Estadual DST/Aids e Hepatites Virais do Estado do Rio de Janeiro, no enfrentamento à epidemia de aids entre aqueles que denominamos HSH (Homens que fazem Sexo com Homens), gays e travestis.
 

 – Qual é o seu trabalho específico?

– Como consultora da Gerência DST/Aids meu trabalho é assessorar a implantação do Plano Estadual de Enfrentamento da Epidemia Aids entre a população de HSH, gays e travestis no Estado do Rio de Janeiro. O Plano é composto de várias metas, objetivos e ações que devem ser implantados por diferentes áreas técnicas da Secretaria Estadual de Saúde e por gestores municipais. Meu trabalho é dialogar com esses segmentos específicos da população, entender suas demandas e intermediar o diálogo com os gestores para implantar serviços de saúde específicos para essa população.

 

 
– Há um projeto denominado “Fique Sabendo”… O que é?

– O Fique Sabendo é uma ação de prevenção às DST/HIV/aids, que oferece a oportunidade de se submeterem à testagem rápida diagnóstica para o HIV e informações sobre doenças sexualmente transmissíveis. O teste é ofertado mediante entrevista individual prévia (aconselhamento). Nessa entrevista há a avaliação em relação aos riscos que a pessoa que deseja realizar o teste tem de ter contraído o HIV em algum momento de sua vida. Esse é um momento importante e indispensável do processo da testagem, pois, além de proporcionar uma reflexão dos riscos de contrair o vírus, avalia-se se a pessoa está preparada para fazer o exame e receber em tão pouco tempo (20 minutos em média) o resultado. Um resultado que pode ser Reagente, em que a pessoa tem o vírus HIV, ou Não Reagente.  O resultado Não Reagente implica afirmar que a pessoa não tem o vírus até 30 dias antes do dia do exame. Exemplificando: se fiz o teste no dia 20 de setembro e meu resultado deu Não Reagente para o HIV, isso quer dizer que até o dia 20 de agosto eu não tinha o vírus. Se tive relações sexuais (orais, anais e/ou vaginais) desprotegidas (sem preservativo), posso ter contraído o vírus e ainda não deu tempo de ele aparecer no meu exame, e isso se chama janela imunológica. Para ter certeza de que realmente não tenho o vírus (Não Reagente), preciso esperar 30 dias após o resultado do exame, utilizando preservativo em todas as relações sexuais, e repetir o exame. Só dessa forma terei segurança do meu diagnóstico. Mas basta uma transa sem preservativo e preciso começar novamente todo o processo.

 

 – Vocês estiveram no Rock in Rio…

– O Ministério da Saúde, em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde, montou um stand para uma ação de Fique Sabendo. Eram cerca de 200 testes por dia. A procura foi muito boa e a ação considerada um sucesso se se levar em conta o quantitativo de pessoas, principalmente de jovens que se interessaram em buscar informações sobre aids e realizar o teste.

 

– A aids está controlada, vamos todos dormir em paz?

Antes de responder à pergunta é importante explicar a diferença entre HIV e aids. HIV é o Vírus da Imunodeficiência Adquirida, ou seja, é o vírus que causa a aids. Só tem aids quem tem esse vírus. Aids é a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, que é um conjunto de sintomas que adoece nosso corpo. O HIV, quando entra em nosso corpo, vai destruindo nossa imunidade e nos deixando vulneráveis para contrair doenças. O que podemos afirmar hoje é que a aids é bem controlada por meio de medicamentos muito eficazes, que oferecem qualidade de vida muito boa para quem os utiliza de forma correta, sem esquecimento e com acompanhamento médico.

 

 – Então, a ausência de controle diz respeito ao vírus?

– Exatamente. O que não está controlada é a transmissão do vírus HIV, pois continua sendo muito difícil a adesão ao uso de preservativos, de forma frequente, pela maioria das pessoas. Hoje temos uma epidemia que vem aumentando entre jovens, na faixa de 14 a 24 anos. São jovens que não assistiram ao adoecimento de pessoas em função da aids na década de 80. Atualmente podemos dormir em paz porque as pessoas com aids têm acesso a medicamentos, tratamentos e a uma qualidade de vida melhor. Mas não podemos falar o mesmo da transmissão do vírus. Vem daí a necessidade de campanhas como o Fique Sabendo, para que as pessoas saibam do seu diagnóstico. Hoje em dia, todas as pesquisas científicas indicam que quanto mais cedo se sabe do diagnóstico mais cedo se inicia o tratamento e mais qualidade de vida a pessoa tem.
 
       

– Você esteve em Angola. O mesmo trabalho?

– Estive em Angola participando de uma pesquisa de prevalência do HIV entre meninas de 15 a 24 anos, moradoras da província de Cunene, que faz fronteira com a Namíbia. Em função da cultura a que pertencem, as jovens possuem um comportamento sexual que as colocava em risco. Oferecíamos testagem para o HIV e sífilis, e encaminhávamos para tratamento. Capacitamos muitos profissionais de saúde a trabalhar com pesquisa em saúde, o que certamente poderá ser aproveitado pelo governo local para outras pesquisas.

 

 – Obrigado pelas respostas. Assunto muito, mas muito sério…

– Gostaria de agradecer a oportunidade de falar sobre minha trajetória profissional, principalmente em relação ao trabalho com a prevenção à aids. Espero ter contribuído de forma positiva com as informações ofertadas, e conto com a ajuda de todos que lerem esta entrevista para serem multiplicadores de informação em relação à aids e à importância do uso do preservativo, que continua sendo a maneira mais eficaz de se prevenir contra as DST/HIV/aids.

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