Homem dado como morto aparece em seu próprio velório

Homem chega em casa e interrompe o 'próprio' velório em Alagoinhas (BA) (Foto: Reprodução/ TV Subaé)

A tristeza de uma família de Alagoinhas, no sertão da Bahia, pela perda de um parente foi substituída por susto, alívio e alegria. Dado como morto, Gilberto Araújo Santos apareceu, vivo, em seu velório. “Demoramos a acreditar no que estava acontecendo”, disse Ana Paula Conceição, cunhada dele. Gilberto foi confundido com um homem assassinado na noite de sábado. Uma série de coincidências contribuiu para que nem a mãe nem a filha dele percebessem a confusão. Os dois homens são muito parecidos fisicamente, trabalhavam em locais próximos lavando carros, não portavam documentos, viviam na rua e eram usuários de crack, segundo a polícia. A confusão começou quando surgiu na cidade a notícia de que um lavador de carros fora assassinado no centro. “Ligaram para meu marido e disseram que haviam matado o irmão dele”, relata a cunhada. No IML, a informação era que havia o corpo de um homem negro, com as características de Gilberto, sem documentos. O irmão José Marcos reconheceu o corpo, que estava sem camisa e com uma bermuda com estampa parecida com a que Gilberto costumava usar. O corpo foi velado por 16 horas, das 18h de domingo às 10h da manhã de segunda-feira, na presença de dezenas de amigos e parentes, entre eles a filha e a mãe de Gilberto. Ninguém percebeu o engano até que o próprio apareceu, duas horas antes do enterro. “Um amigo viu o Gilberto no centro e avisou que a família estava velando seu corpo”, disse Conceição.

x-x-x-x-

 Grita o dono do boteco pé-mais-do-que-sujo, lá de dentro do balcão:

– Aristeu, quer mais uma?

-Só uma, seu Deoclides, só uma, tenho que ir pra casa.

Aristeu engole a dose da cana “Juízo”, mastiga um pedaço de carne de sol. Tempo fresco, segunda de manhã, depois de um domingo quente. Mas Aristeu está triste, muito triste. Ficara sabendo, na noite anterior, que seu amigo Gilberto, de tantas pingas juntos, havia sido assassinado ali perto, no centro mesmo da cidade de Alagoinhas, a velha e querida cidade de Alagoinhas. Nagílson, Deividson, Maria Imaculada, os irmãos Jesse e James, todos eles já tinham ido ao velório, passaram por ali, comentaram a agonia da família. Mas Aristeu estava sem coragem.

E a tristeza o fazia ficar quieto na cadeira, vendo o movimento na rua. Trouxas, cestas, frutas, crianças indo para a escola, poeira levantada. Não resiste: pede mais uma ao Deoclides. “Mas pequena, seu Deoclides, dois dedos só”.

Ameaça levantar-se, tem que comprar ao menos um quilo de arroz para o almoço. Decide o trajeto da tarde: almoça, uma soneca, e em seguida vai para a casa do Gilberto, ver o corpo do amigo. Gosta muito da família do Gilberto, a mãe dele deve estar chorando sem parar.

Seu Deoclides coloca a pinga perto da sua mão. Aristeu olha novamente para a rua, a mesma cena se repete: crianças indo e voltando do colégio, ônibus cheio, poeira levantada, dona Iracema, vizinha da sua mãe, o amigo Gilberto, trouxas, cestas…

 Gilberto???!!!

 “Seu Deoclides, de onde o sr. trouxe essa pinga, Senhor do Bonfim?!”

“Por quê?”

“Acabei de ver passar aqui na porta o Gilberto…”

“O Gilberto? Ele morreu, Aristeu. Pare de beber. O corpo foi pra casa dele, está todo mundo comentando…”

“Seu Deoclides, eu vi o Gilberto passando, de bermuda, aquele jeito dele!”

“Chega de beber, Aristeu, você já tomou três, chega, ainda nem almoçou”.

“Pois eu lhe juro, pois eu lhe juro”.

O dono do bar vai até a porta, não há ninguém parecido com o Gilberto.

“Aristeu, é por conta da gente gostar muito dele, isso acontece, a gente vê as pessoas que morrem, mas vê somente no coração”.

Deoclides está parado, ameaça dar o primeiro passo em direção ao balcão. Mas alguém coloca a mão em seu ombro, e pergunta:

“Seu Deoclides, o senhor me vende uma pinga fiado?”

Seu Deoclides olha a mão, ouve a voz, e percebe, no olhar de Aristeu, que o cemitério pode ter sido aberto… Vira-se devagar e dá de frente com os olhos esbugalhados de Gilberto, a dois palmos de seu rosto…

Nos fundos do bar havia uma janelinha pequena, estreita propositalmente para não passar ser humano, Deoclides tinha medo do bar ser roubado. Ali mal dava para passar uma criança franzina.

 Uma semana depois do acontecido, ninguém ainda conseguiu explicar como Deoclides e Aristeu, de um salto só, um por vez, saíram por ali, caíram numa poça de água suja e correram, mas tanto, que as pingas de Aristeu se evaporaram em três pernadas.

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1 comentário

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Uma resposta para “Homem dado como morto aparece em seu próprio velório

  1. Lo Campomizzi

    muito bom, guilherme.
    abraços

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