Qual o nosso grau de conhecimento em relação à energia nuclear ? Chico Whitaker, ex-vereador em São Paulo, um dos organizadores do Fórum Social Mundial, está engajado na luta antinuclear. Há cerca de três meses ele e Stela Whitaker, sua mulher, divulgaram uma carta na qual explicam as razões que os levaram a « entrar nessa seara ».

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A foto, de Raimond Spekking, mostra Chico Whitaker em uma igreja, na cidade de Colônia, Alemanha, no dia 7 de junho de 2007.

Eis a carta:

Prezados amigos e prezadas amigas :

Muitos de vocês devem estar surpresos com nosso engajamento, de um ano para cá, na luta antinuclear. Mal conhecendo questões de energia e praticamente nada de física ou engenharia nuclear, por que entramos nessa seara, em si mesma extremamente técnica e difícil, e tão diferente de nossas áreas profissionais? E por que nos concentramos em um conteúdo tão específico de ação política, quando há um bom tempo nos ocupamos muito mais com a ação política como tal ?

Quem nos empurrou para dentro desse desafio foram os amigos Alfredo e Ecléa Bosi, pouco depois do acidente nuclear de março de 2011, em Fukushima, no Japão. Eles nos acordaram para a impossibilidade de, como cidadãos e seres humanos, aceitarmos passivamente a insistência de nosso governo em usar a tão perigosa opção nuclear para atender às necessidades energéticas do Brasil.

De lá para cá temos procurado ler, ouvir, conversar, perguntar, pesquisar. E vamos ficando cada vez mais estarrecidos com o manto de mistério e de mentira com que se procura encobrir tudo o que se refere ao nuclear e com os riscos que corremos com essa opção política, no Brasil e no mundo. Tomamos conhecimento de fatos gravíssimos que não são noticiados, sobre, por exemplo, o que aconteceu e continua acontecendo em Chernobyl, em Fukushima e até em Goiânia, palco em 1987 de grave acidente radioativo do qual hoje pouca gente no Brasil se lembra.

O pânico tomaria conta da população se soubéssemos a verdade. Essa talvez seja a justificativa dos técnicos e políticos, que entraram alegremente nessa aventura de aprendizes de feiticeiro, para nos manterem na mais completa ignorância dos perigos que vivemos – diga-se de passagem que o fazem regiamente recompensados pelos grandes interesses econômicos, nacionais e internacionais, que ganham com a opção nuclear. Que Deus nos proteja, mas como viveriam os moradores de Angra dos Reis se soubessem o quanto sofrerão com um acidente nas vizinhas usinas! Acidentes que podem ocorrer sem necessidade dos terremotos e tsunamis de Fukushima, mas por simples descuidos humanos ou falhas de máquinas ou projetos, ou mesmo, nesse caso concreto, por desbarrancamentos da “pedra podre” (Itaorna) sobre a qual foram construídas .

De fato, contrariamente ao que afirmam os defensores da energia nuclear (muitos com incrível desfaçatez e até de forma arrogante), ninguém em sã consciência pode afirmar que existe obra de engenharia humana 100% segura. Mas as consequências da explosão de um reator nuclear (por mais longínqua que se torne, pelos mil novos cuidados de segurança que vão sendo efetivamente tomados) não são as de um incidente técnico qualquer, com alguns ‘efeitos colaterais’ negativos, sempre passíveis de conserto e reconstrução, quando por sorte não se perderam vidas humanas. Elas são catastróficas porque liberam, em níveis imprevisíveis, a invisível mas mortífera radioatividade, que contaminará diretamente o ar, a terra, as plantas, as coisas, os animais e as pessoas num raio de pelo menos 30 quilômetros, e as afetará por muitas gerações.

E há ainda a real possibilidade, nos dias de hoje, das ações chamadas terroristas, que podem transformar uma usina nuclear, aparentemente bela e inofensiva, em uma bomba atômica muito mais poderosa que as de Hiroshima e Nagasaki, de tristíssima memória.

Pouquíssimo se fala, por outro lado, além dos riscos de explosão e do descalabro da radioatividade do lixo atômico, um subproduto automático e absurdo, escondido atrás do mito da energia limpa, do funcionamento ‘pacífico’ dessas usinas – herança realmente diabólica que já estamos (repetindo, já estamos…) deixando para as futuras gerações. E menos ainda se fala da possibilidade de proliferação de armas nucleares que se esconde atrás da tecnologia nuclear.

Tomamos contato em junho com a realidade francesa, onde quase 80% da energia elétrica é fornecida por centrais nucleares. Vimos que isso é hoje tão dramático para eles que nem gostam de comentar. Em países do hemisfério norte, o rigor dos invernos faz com que a energia elétrica tenha se tornado imprescindível para esquentar as casas (já que não é possível ter vacas no andar de baixo), como para fazer funcionar máquinas, transportes, iluminação pública. Ora, ‘sair do nuclear’, como dizem os franceses, é um demorado caminho que hoje, após Chernobyl e Fukushima, eles procuram nervosamente encontrar. Um caminho ao longo do qual continuarão a conviver, cada dia, com o risco de acidentes em suas usinas e os milhares de caminhões e trens que transportam, pelo país afora, toneladas e toneladas de lixo atômico.

Tem algum sentido que o Brasil, que só começou a entrar nessa armadilha (hoje pouco mais de 1% de nossa energia vem das usinas nucleares de Angra), tome inconscientemente o mesmo caminho? E isso sem nenhuma necessidade, graças às possibilidades que Deus nos deu de contar com enormes fontes de energia natural, como os rios, as marés e correntes marítimas, o vento e o sol, além da biomassa e dos próprios dejetos animais. Nosso governo e os responsáveis do seu setor nuclear têm o direito de ser assim irresponsáveis ou desinformados? Na verdade, ao construir Angra III e conduzir o país a esse beco estreito se tornam passíveis da acusação de crime de lesa-humanidade. É urgente, portanto, acordá-los.

Cada vez mais gente se associa no engajamento político com esse objetivo, em esforço crescente de esclarecimento de nós mesmos, da população em geral, do governo e do Congresso. Há pouco menos de um ano foi constituída em São Paulo a Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares (www.brasilcontrausinanuclear.com.br), que logo se ligou a uma Articulação Antinuclear Brasileira (antinuclearbr.blogspot.com), criada na mesma ocasião, no Rio de Janeiro. Em junho de 2012 ambas as organizações montaram uma ‘tenda antinuclear’ durante a Rio+20, onde, assim como em outras atividades realizadas paralelamente a essa Conferência, ouvimos testemunhos impressionantes, especialmente de japoneses, vindos de Fukushima e outras regiões do país, e de Chernobyl. Mas, para termos ideia do poder do lobby nuclear, ao mesmo tempo do Japão se noticiava que o governo daquele país havia ignorado olimpicamente uma petição com 7 milhões de assinaturas contra a reabertura de suas usinas e reabriu duas delas, supostamente mais seguras. E já se sabia que os Estados Unidos, depois de abandonar a construção de novas usinas após o acidente de Three Miles Island, em 1979, estavam tomando a decisão de retomar tais construções…

Por todas essas razões a luta antinuclear passou a ser, hoje, nossa principal atividade, à qual consagramos nosso maior esforço físico e emocional. Dentro dele acabamos de organizar um livrinho explicativo sobre o assunto, publicado pelas Edições Paulinas (com o titulo ‘Por um Brasil livre de usinas nucleares’). E usamos todas as ocasiões possíveis para colher assinaturas na Iniciativa Popular lançada pela Coalizão e pela Articulação para que nossa Constituição vede a construção de usinas nucleares no Brasil.

Na verdade, uma enorme angústia vem nos invadindo, ao tomarmos cada vez mais consciência de todos os riscos que existem e que crescem graças à desinformação generalizada sobre o que realmente se passou e se passa no mundo com a tecnologia nuclear.

Vamos convidá-los sempre mais a participar dessa luta. Há muitas e diferentes maneiras de fazê-lo. Por exemplo, indo às reuniões da Coalizão, em que procuramos combinar o esforço de informação com o de ação concreta. Estamos sempre discutindo quais ações desenvolver para acordar o máximo possível de pessoas (e nosso governo) para a realidade da energia nuclear, na esperança de tornar impossível esse pesadelo, antes que seja tarde demais.

       

São Paulo, 12 de julho de 2012                                       

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