Arquivo do mês: outubro 2012

Homem dado como morto aparece em seu próprio velório

Homem chega em casa e interrompe o 'próprio' velório em Alagoinhas (BA) (Foto: Reprodução/ TV Subaé)

A tristeza de uma família de Alagoinhas, no sertão da Bahia, pela perda de um parente foi substituída por susto, alívio e alegria. Dado como morto, Gilberto Araújo Santos apareceu, vivo, em seu velório. “Demoramos a acreditar no que estava acontecendo”, disse Ana Paula Conceição, cunhada dele. Gilberto foi confundido com um homem assassinado na noite de sábado. Uma série de coincidências contribuiu para que nem a mãe nem a filha dele percebessem a confusão. Os dois homens são muito parecidos fisicamente, trabalhavam em locais próximos lavando carros, não portavam documentos, viviam na rua e eram usuários de crack, segundo a polícia. A confusão começou quando surgiu na cidade a notícia de que um lavador de carros fora assassinado no centro. “Ligaram para meu marido e disseram que haviam matado o irmão dele”, relata a cunhada. No IML, a informação era que havia o corpo de um homem negro, com as características de Gilberto, sem documentos. O irmão José Marcos reconheceu o corpo, que estava sem camisa e com uma bermuda com estampa parecida com a que Gilberto costumava usar. O corpo foi velado por 16 horas, das 18h de domingo às 10h da manhã de segunda-feira, na presença de dezenas de amigos e parentes, entre eles a filha e a mãe de Gilberto. Ninguém percebeu o engano até que o próprio apareceu, duas horas antes do enterro. “Um amigo viu o Gilberto no centro e avisou que a família estava velando seu corpo”, disse Conceição.

x-x-x-x-

 Grita o dono do boteco pé-mais-do-que-sujo, lá de dentro do balcão:

– Aristeu, quer mais uma?

-Só uma, seu Deoclides, só uma, tenho que ir pra casa.

Aristeu engole a dose da cana “Juízo”, mastiga um pedaço de carne de sol. Tempo fresco, segunda de manhã, depois de um domingo quente. Mas Aristeu está triste, muito triste. Ficara sabendo, na noite anterior, que seu amigo Gilberto, de tantas pingas juntos, havia sido assassinado ali perto, no centro mesmo da cidade de Alagoinhas, a velha e querida cidade de Alagoinhas. Nagílson, Deividson, Maria Imaculada, os irmãos Jesse e James, todos eles já tinham ido ao velório, passaram por ali, comentaram a agonia da família. Mas Aristeu estava sem coragem.

E a tristeza o fazia ficar quieto na cadeira, vendo o movimento na rua. Trouxas, cestas, frutas, crianças indo para a escola, poeira levantada. Não resiste: pede mais uma ao Deoclides. “Mas pequena, seu Deoclides, dois dedos só”.

Ameaça levantar-se, tem que comprar ao menos um quilo de arroz para o almoço. Decide o trajeto da tarde: almoça, uma soneca, e em seguida vai para a casa do Gilberto, ver o corpo do amigo. Gosta muito da família do Gilberto, a mãe dele deve estar chorando sem parar.

Seu Deoclides coloca a pinga perto da sua mão. Aristeu olha novamente para a rua, a mesma cena se repete: crianças indo e voltando do colégio, ônibus cheio, poeira levantada, dona Iracema, vizinha da sua mãe, o amigo Gilberto, trouxas, cestas…

 Gilberto???!!!

 “Seu Deoclides, de onde o sr. trouxe essa pinga, Senhor do Bonfim?!”

“Por quê?”

“Acabei de ver passar aqui na porta o Gilberto…”

“O Gilberto? Ele morreu, Aristeu. Pare de beber. O corpo foi pra casa dele, está todo mundo comentando…”

“Seu Deoclides, eu vi o Gilberto passando, de bermuda, aquele jeito dele!”

“Chega de beber, Aristeu, você já tomou três, chega, ainda nem almoçou”.

“Pois eu lhe juro, pois eu lhe juro”.

O dono do bar vai até a porta, não há ninguém parecido com o Gilberto.

“Aristeu, é por conta da gente gostar muito dele, isso acontece, a gente vê as pessoas que morrem, mas vê somente no coração”.

Deoclides está parado, ameaça dar o primeiro passo em direção ao balcão. Mas alguém coloca a mão em seu ombro, e pergunta:

“Seu Deoclides, o senhor me vende uma pinga fiado?”

Seu Deoclides olha a mão, ouve a voz, e percebe, no olhar de Aristeu, que o cemitério pode ter sido aberto… Vira-se devagar e dá de frente com os olhos esbugalhados de Gilberto, a dois palmos de seu rosto…

Nos fundos do bar havia uma janelinha pequena, estreita propositalmente para não passar ser humano, Deoclides tinha medo do bar ser roubado. Ali mal dava para passar uma criança franzina.

 Uma semana depois do acontecido, ninguém ainda conseguiu explicar como Deoclides e Aristeu, de um salto só, um por vez, saíram por ali, caíram numa poça de água suja e correram, mas tanto, que as pingas de Aristeu se evaporaram em três pernadas.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

São Judas Tadeu, o santo dos desesperados…

Outubro está acabando, o tempo passa e a Lusitana roda, e é impossível nada dizer sobre quatro belos santos deste mês. Vejam na foto: eles se reuniram, fizeram um pequeno colóquio sobre algumas questões religiosas. Continuam firmes e amigos. Ao final do encontro divulgaram nota na qual afirmam, com todas as abençoadas letras: “Andar com fé nós vamos, pois a fé não costuma falhar!”.

Pela ordem de entrada em cena em outubro homenageamos São Francisco de Assis (dia 4), a bela Nossa Senhora Aparecida, a padroeira negra deste Brasil abençoado (12). Em seguida, dia 15, foi o dia de Santa Teresa d’Ávila, santa espanhola, que precisa ser mais bem conhecida, pois sua vida é de uma beleza impressionante. No dia 4 de outubro último, inclusive, celebraram-se os 430 anos de sua morte: 4 de outubro de 1582, na cidade de Alba de Tormes. E o queridíssimo São Judas Tadeu, aquele que no dia 28, domingo próximo, arrastará multidões ao seu santuário, aqui em São Paulo. Evidentemente depois da votação, quando os paulistanos irão às urnas escolher o NOVO prefeito de São Paulo, o NOVO prefeito para um TEMPO NOVO que todos queremos.

São Judas manda dizer que o voto é mais secreto do que eleição de Papa… 

Sobre as imagens da foto: as quatro foram feitas por Cleia Mansur, artesã de Juiz de Fora; ela recolhe garrafas de cerveja long neck nos bares das redondezas de sua casa. O corpo de cada imagem é, portanto, uma garrafa vazia que, abençoadamente, nela se transformou.

O divino Francisco

O divino Francisco, que se chamava Francisco Bernardone (nasceu na Úmbria, região da Itália, no dia 5 de julho de 1182), era filho de comerciantes ricos. O historiador Jacques Le Goff, em seu livro “São Francisco de Assis”, publicado pela Editora Record em 2001, não hesita em demonstrar sua admiração pelo biografado: “…Francisco desempenhou papel decisivo no impulso de novas ordens mendicantes, difundindo um apostolado voltado para a nova sociedade cristã, e enriqueceu a espiritualidade com uma dimensão ecológica que fez dele o criador de um sentimento medieval da natureza expresso na religião, na literatura e na arte”.

Fala, Francisco…!

“O que temer? Nada. A quem temer? Ninguém. Por quê? Porque aqueles que se unem a Deus obtêm três grandes privilégios: onipotência sem poder, embriaguez sem vinho e vida sem morte”.

 “A cortesia é irmã da caridade, que apaga o ódio e fomenta o amor”.

 A terceira manifestação do pobre de Assis resume a grande mudança que sempre defendeu:

 “Senhor, faça de mim um instrumento de Sua paz”.

 Pois não há paz sem justiça, não há paz sem voz, não há paz sem democracia e liberdade, sem moradia e trabalho, sem dignidade e esperança. Especialmente os pobres não têm paz, aqueles que Francisco mais amava.

 Em tempo!

Recebemos aqui um e-mail da jornalista, escritora, querida amiga e irmã Marisa Marega, apaixonada por Santa Teresa d’Ávila. Abrindo aspas para a Marisa:

“Santa Teresa é revolucionária e atemporal, exemplo de como é possível unir ação e contemplação. Na juventude, afirmou ter descoberto a verdade, que se resume em dois princípios fundamentais: de um lado, ‘o fato que tudo aquilo que pertence ao mundo daqui, passa’; do outro, que somente Deus é para sempre, sempre, sempre.

A partir desses pressupostos aprofunda sua ligação com Deus por meio da oração. Posteriormente, já na maturidade, dá concretude às asas e começa a desenvolver o ideal de reforma da ordem carmelitana.

Ela lutou contra o poder dentro da Igreja e escalou muros erguidos pelos perseguidores. Sem esmorecer, seguiu na fundação de seus 17 carmelos reformados.

De seu encontro com São João da Cruz, em 1568, lançou as fundações em Duruelo, vizinho a Ávila, do primeiro convento dos carmelitanos descalços. Em 1580, obtém de Roma a fundação da Província autônoma para os seus carmelos reformados, ponto de origem da ordem religiosa das carmelitas descalças.

Como escritora, em época na qual que as mulheres não tinham voz, deixou inúmeros textos. Um deles sintetiza sua obra: ‘Nada te perturbe, nada de amedronte, tudo passa. Deus não muda, a paciência alcança tudo. A quem tem Deus nada falta, só Deus basta’.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Qual o nosso grau de conhecimento em relação à energia nuclear ? Chico Whitaker, ex-vereador em São Paulo, um dos organizadores do Fórum Social Mundial, está engajado na luta antinuclear. Há cerca de três meses ele e Stela Whitaker, sua mulher, divulgaram uma carta na qual explicam as razões que os levaram a « entrar nessa seara ».

Imagem

A foto, de Raimond Spekking, mostra Chico Whitaker em uma igreja, na cidade de Colônia, Alemanha, no dia 7 de junho de 2007.

Eis a carta:

Prezados amigos e prezadas amigas :

Muitos de vocês devem estar surpresos com nosso engajamento, de um ano para cá, na luta antinuclear. Mal conhecendo questões de energia e praticamente nada de física ou engenharia nuclear, por que entramos nessa seara, em si mesma extremamente técnica e difícil, e tão diferente de nossas áreas profissionais? E por que nos concentramos em um conteúdo tão específico de ação política, quando há um bom tempo nos ocupamos muito mais com a ação política como tal ?

Quem nos empurrou para dentro desse desafio foram os amigos Alfredo e Ecléa Bosi, pouco depois do acidente nuclear de março de 2011, em Fukushima, no Japão. Eles nos acordaram para a impossibilidade de, como cidadãos e seres humanos, aceitarmos passivamente a insistência de nosso governo em usar a tão perigosa opção nuclear para atender às necessidades energéticas do Brasil.

De lá para cá temos procurado ler, ouvir, conversar, perguntar, pesquisar. E vamos ficando cada vez mais estarrecidos com o manto de mistério e de mentira com que se procura encobrir tudo o que se refere ao nuclear e com os riscos que corremos com essa opção política, no Brasil e no mundo. Tomamos conhecimento de fatos gravíssimos que não são noticiados, sobre, por exemplo, o que aconteceu e continua acontecendo em Chernobyl, em Fukushima e até em Goiânia, palco em 1987 de grave acidente radioativo do qual hoje pouca gente no Brasil se lembra.

O pânico tomaria conta da população se soubéssemos a verdade. Essa talvez seja a justificativa dos técnicos e políticos, que entraram alegremente nessa aventura de aprendizes de feiticeiro, para nos manterem na mais completa ignorância dos perigos que vivemos – diga-se de passagem que o fazem regiamente recompensados pelos grandes interesses econômicos, nacionais e internacionais, que ganham com a opção nuclear. Que Deus nos proteja, mas como viveriam os moradores de Angra dos Reis se soubessem o quanto sofrerão com um acidente nas vizinhas usinas! Acidentes que podem ocorrer sem necessidade dos terremotos e tsunamis de Fukushima, mas por simples descuidos humanos ou falhas de máquinas ou projetos, ou mesmo, nesse caso concreto, por desbarrancamentos da “pedra podre” (Itaorna) sobre a qual foram construídas .

De fato, contrariamente ao que afirmam os defensores da energia nuclear (muitos com incrível desfaçatez e até de forma arrogante), ninguém em sã consciência pode afirmar que existe obra de engenharia humana 100% segura. Mas as consequências da explosão de um reator nuclear (por mais longínqua que se torne, pelos mil novos cuidados de segurança que vão sendo efetivamente tomados) não são as de um incidente técnico qualquer, com alguns ‘efeitos colaterais’ negativos, sempre passíveis de conserto e reconstrução, quando por sorte não se perderam vidas humanas. Elas são catastróficas porque liberam, em níveis imprevisíveis, a invisível mas mortífera radioatividade, que contaminará diretamente o ar, a terra, as plantas, as coisas, os animais e as pessoas num raio de pelo menos 30 quilômetros, e as afetará por muitas gerações.

E há ainda a real possibilidade, nos dias de hoje, das ações chamadas terroristas, que podem transformar uma usina nuclear, aparentemente bela e inofensiva, em uma bomba atômica muito mais poderosa que as de Hiroshima e Nagasaki, de tristíssima memória.

Pouquíssimo se fala, por outro lado, além dos riscos de explosão e do descalabro da radioatividade do lixo atômico, um subproduto automático e absurdo, escondido atrás do mito da energia limpa, do funcionamento ‘pacífico’ dessas usinas – herança realmente diabólica que já estamos (repetindo, já estamos…) deixando para as futuras gerações. E menos ainda se fala da possibilidade de proliferação de armas nucleares que se esconde atrás da tecnologia nuclear.

Tomamos contato em junho com a realidade francesa, onde quase 80% da energia elétrica é fornecida por centrais nucleares. Vimos que isso é hoje tão dramático para eles que nem gostam de comentar. Em países do hemisfério norte, o rigor dos invernos faz com que a energia elétrica tenha se tornado imprescindível para esquentar as casas (já que não é possível ter vacas no andar de baixo), como para fazer funcionar máquinas, transportes, iluminação pública. Ora, ‘sair do nuclear’, como dizem os franceses, é um demorado caminho que hoje, após Chernobyl e Fukushima, eles procuram nervosamente encontrar. Um caminho ao longo do qual continuarão a conviver, cada dia, com o risco de acidentes em suas usinas e os milhares de caminhões e trens que transportam, pelo país afora, toneladas e toneladas de lixo atômico.

Tem algum sentido que o Brasil, que só começou a entrar nessa armadilha (hoje pouco mais de 1% de nossa energia vem das usinas nucleares de Angra), tome inconscientemente o mesmo caminho? E isso sem nenhuma necessidade, graças às possibilidades que Deus nos deu de contar com enormes fontes de energia natural, como os rios, as marés e correntes marítimas, o vento e o sol, além da biomassa e dos próprios dejetos animais. Nosso governo e os responsáveis do seu setor nuclear têm o direito de ser assim irresponsáveis ou desinformados? Na verdade, ao construir Angra III e conduzir o país a esse beco estreito se tornam passíveis da acusação de crime de lesa-humanidade. É urgente, portanto, acordá-los.

Cada vez mais gente se associa no engajamento político com esse objetivo, em esforço crescente de esclarecimento de nós mesmos, da população em geral, do governo e do Congresso. Há pouco menos de um ano foi constituída em São Paulo a Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares (www.brasilcontrausinanuclear.com.br), que logo se ligou a uma Articulação Antinuclear Brasileira (antinuclearbr.blogspot.com), criada na mesma ocasião, no Rio de Janeiro. Em junho de 2012 ambas as organizações montaram uma ‘tenda antinuclear’ durante a Rio+20, onde, assim como em outras atividades realizadas paralelamente a essa Conferência, ouvimos testemunhos impressionantes, especialmente de japoneses, vindos de Fukushima e outras regiões do país, e de Chernobyl. Mas, para termos ideia do poder do lobby nuclear, ao mesmo tempo do Japão se noticiava que o governo daquele país havia ignorado olimpicamente uma petição com 7 milhões de assinaturas contra a reabertura de suas usinas e reabriu duas delas, supostamente mais seguras. E já se sabia que os Estados Unidos, depois de abandonar a construção de novas usinas após o acidente de Three Miles Island, em 1979, estavam tomando a decisão de retomar tais construções…

Por todas essas razões a luta antinuclear passou a ser, hoje, nossa principal atividade, à qual consagramos nosso maior esforço físico e emocional. Dentro dele acabamos de organizar um livrinho explicativo sobre o assunto, publicado pelas Edições Paulinas (com o titulo ‘Por um Brasil livre de usinas nucleares’). E usamos todas as ocasiões possíveis para colher assinaturas na Iniciativa Popular lançada pela Coalizão e pela Articulação para que nossa Constituição vede a construção de usinas nucleares no Brasil.

Na verdade, uma enorme angústia vem nos invadindo, ao tomarmos cada vez mais consciência de todos os riscos que existem e que crescem graças à desinformação generalizada sobre o que realmente se passou e se passa no mundo com a tecnologia nuclear.

Vamos convidá-los sempre mais a participar dessa luta. Há muitas e diferentes maneiras de fazê-lo. Por exemplo, indo às reuniões da Coalizão, em que procuramos combinar o esforço de informação com o de ação concreta. Estamos sempre discutindo quais ações desenvolver para acordar o máximo possível de pessoas (e nosso governo) para a realidade da energia nuclear, na esperança de tornar impossível esse pesadelo, antes que seja tarde demais.

       

São Paulo, 12 de julho de 2012                                       

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized