Mergulhar na estrada e percorrer a alma. Gustavo Abade: 541 quilômetros no Caminho da Fé.

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De São Carlos a Aparecida, passo a passo, mochila nas costas, sonho no coração, curvas, rios e montanhas. Solidariedade e encontros carregados de emoção, que culminaram na chegada ao Santuário, diante da imagem, depois do último quilômetro percorrido ao lado da mulher, Patrícia, que está com ele na foto, no dia 7 de setembro. Figura querida, entre outras atividades ligadas ao esporte, Gustavo coordena um grupo de corridas, da Equipe Branca, que se reúne no Museu do Ipiranga duas vezes por semana.

 – E aí, professor…? Não é mole, parabéns. Para não haver dúvidas, 541 quilômetros são 541 km, também conhecidos como 541 mil metros. É metro que não acaba mais. Vamos começar a caminhar aqui na entrevista. Seu nome todo, por favor…

 – Sou Gustavo Neves Abade, nascido em Santos, no dia 14 de agosto de 1975. Bacharel em Esportes pela USP, hoje sou treinador de corridas e empresário.

– Explique o que é o Caminho da Fé.

 – Trata-se de um conceito de caminho de peregrinação baseado no Caminho de Santiago de Compostela, que chega à cidade espanhola. O nosso Caminho da Fé tem algumas peculiaridades. Em primeiro lugar por ser um caminho de devoção à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. O final dele se dá em frente à imagem de Nossa Senhora, no Santuário, em Aparecida do Norte. O nosso foi criado por peregrinos do Caminho de Santiago, que resolveram fazer o mesmo no Brasil – Almiro Grings, Clóvis Tavares de Lima e Iracema Tamashiro.

 – Você começou a percorrê-lo em São Carlos, não foi?

 – Inicialmente ele começava na cidade de Águas da Prata, em São Paulo, na divisa com Minas Gerais, passando por várias cidades do sul mineiro, pela Serra da Mantiqueira, retornando a São Paulo por Campos do Jordão, descendo a serra para a cidade de Pindamonhangaba, chegando a Aparecida. Esse percurso inicial era de aproximadamente 354km.

– Subiram a rodagem para 500 e tantos…

 – O Caminho da Fé vai fazer dez anos em 2013. Com o passar dos anos foram acrescidos pontos iniciais, com novas rotas, até chegar ao início original em Águas da Prata. Hoje, pode se iniciar o Caminho em quatro pontos diferentes: Cravinhos, Mococa, Divinolândia e São Carlos.

 – Você escolheu o mais longo. Por quê?

 – O meu namoro com o Caminho começou em 2009, quando fui dar apoio a alguns alunos de nossa assessoria em uma corrida que é feita em parte do Caminho, na BR-135. Era uma ultramaratona de 217km. Depois de dois anos indo à prova apoiar e ajudar, no ano passado resolvi fazer a prova na categoria solo. Mas não completei a ultramaratona. Este ano, 2012, me inscrevi novamente e completei a corrida, no primeiro semestre. Mas as montanhas continuavam me chamando, e queria muito conhecer o Caminho todo e não somente os 217km.

 – Percorrê-lo de outro modo, sem pressa.

 – Isso, viver a essência de uma peregrinação, sobre a qual só tinha lido ou conversado a respeito. Fazê-lo como deve ser feito, com a mochila nas costas, caminhando, não correndo com uma equipe de apoio de carro, vencendo o relógio. Queria caminhar sem pressa. A vontade sempre existiu, mas executá-la era algo mais difícil, pois tinha que achar tempo na minha vida muito corrida, e fazer o caminho todo. Foi então que no final de junho decidi: vou fazer o meu tempo, e marquei a data de início para dia 23 de agosto, e fui com tudo.

– Reflexão individual, orações…

 – Momento de passar mais tempo comigo mesmo, reflexão da minha vida, equilibrar o que estava desequilibrado e agradecer as muitas conquistas que tenho ao longo da vida. As montanhas me chamavam…

 – Você é uma pessoa de fé?

 – Sou de uma família de formação católica, fiz até a Primeira Comunhão. Porém, por muito tempo me considerei agnóstico, sempre achando que precisava de uma concretude que me levasse a crer em algo maior. Mas com o tempo percebi que sou um homem de fé; tenho muita fé nas pessoas, tenho muita fé em mim, e tenho fé que nada disso era por acaso. Portanto, nada mais certo que enfrentar o Caminho da Fé até mesmo para esclarecer essas questões pessoais.

– Isso impressiona, pois normalmente quando se tira férias as opções são: a – três dias naquela coisa bem “original” de ir para Orlando; b – lugares “bem pouco” conhecidos, como Buenos Aires, Aruba ou Cancún; c – ou ir a Nova York e ficar desfilando com a camiseta I “um coração” New York. Macaquice pura…

 – Tirar férias é um pouco difícil para profissionais liberais. Mas precisava puxar o freio de mão por um período. Minha mulher não poderia parar de trabalhar nesse período, portanto, o caminho fazia ainda mais sentido. Falar sobre ele seria muito extenso e pretensioso, pois o Caminho não se explica, o Caminho se vive. Como não se pode julgar ou quantificar fé e crenças, que não são questões matemáticas.

– Carregado de emoção…?

 – Muitas. Fazer essa peregrinação é sentir tudo na pele, o gosto, a respiração curta sem razão e a vontade de chorar sem motivos. O Caminho é mágico pela sua geografia, mágico pelas pessoas. Tive a oportunidade de conhecer um Brasil verdadeiro, sem maquiagens, um Brasil puro e simples. Dormi na casa de pessoas autênticas, cuja missão é ajudar o peregrino a percorrê-lo. Não é fácil conhecer pessoas que apenas o acolhem para ajudá-lo a seguir em frente.

– Um momento mais especial?

 – Houve muitos. Todos, na verdade. Mas uma das passagens que mais me marcaram foi a paisagem que tive entre Luminosa e Campos de Jordão. Após ter subido uma serra muito dura, chego ao topo, e sou recompensado com a mais bela vista que tive na vida: uma neblina seguia pelas montanhas abaixo de mim, como um rio em uma planície embaixo de um céu azul, em volta do verde das montanhas. Na verdade, em volta dos verdes das montanhas, pois são múltiplos. Naquele momento, a única reação que tive foi chorar. Chorei por saber que sou pequeno diante daquela paisagem, e me senti presenteado, pois ali o agnóstico teve a explicação que existia algo muito maior do que eu. A comprovação era sentida na pele e no gosto das lágrimas.

– Sem palavras. Continuemos andando…  

 – Outro caso marcante era conhecer pessoas simples e de fé que me encontravam, e apenas me pediam para agradecer ou fazer um pedido a Nossa Senhora quando chegasse ao Santuário. E as palavras de despedida eram sempre: “Vai com Deus e que Nossa Senhora te acompanhe”. Eu sempre respondia: “Você também fique com Deus e tenha sempre um bom dia!”.

 – No último quilômetro a Patrícia, sua mulher, o acompanhou…

 – Percorri o caminho em 16 dias. Tive a alegria e a emoção de fazer o último quilômetro com a minha amada mulher, a Patrícia, pois não fazia sentido chegar sozinho, tinha que chegar com a pessoa mais importante de minha vida. Confesso que quando cheguei em frente à imagem, chorei como o mais devoto de Nossa Senhora, e tive uma prosa grande para atender a todos os pedidos recebidos e guardados pelo Caminho.

– E a entrega tinha que ser feita sem enganos…

 – Acabei mesmo virando o transporte de fé de muitas pessoas, e como um carteiro tinha que entregar a encomenda de maneira correta. Peregrinação é passagem, é transformação. Há um momento na vida no qual todos precisamos nos transformar. Hoje posso assumir que sou um homem de fé.

– Gustavo, excelente, de verdade, excelente a entrevista.

 – Tudo veio do coração e da emoção. E quando as palavras se originam no coração, o caminho da vida fica bem mais fácil…

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