Diretamente da cripta! Depois de 190 anos, ele ressurge, ainda belo, e cantarola: “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor…”

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Nosso entrevistado semanal atende pelo simpático nome de Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon

 

 – Boa tarde, Pedro. Permita-me chamá-lo somente de Pedro?

 – Sem problemas, ô, pá! Depois de tanto tempo, ao contrário do que diz o povo, mesmo tendo sido rei, perdi um pouco a majestade.

 

– Nem tanto, esteja certo. Você ainda ostenta um semblante régio. E está muito bem aqui na foto tirada pela Mariângela Alcântara Rodrigues, a Mariângela, casada com o Odair, lembra-se dela? Opa, Alcântara?! Claro, ela é sua tritataraneta, naquele seu ramo imperial de São José dos Campos. Mas mais importante, Pedro, que é pedra, folgo em vê-lo álacre, como diz um grande amigo, o Tuca, de Niterói. Conhece o Tuca?

 – Não, não tive o prazer. Vamos deixar de prolegômenos. Sigamos às perguntas, ora, pois…

 

 – Perdão, não quero tomar seu tempo, apesar da eternidade. O que acha de a conversa ser aqui, bem perto da cripta, onde repousam seus reais restos mortais?

 – Moro perto do riacho do Ipiranga desde que para cá vim, no sesquicentenário da Independência. Lembra-se da musiquinha? Esse Brasil faz coisas, que ninguém imagina que faz/Sesquicentenário, e vamos mais e mais, na festa do amor e da paz.

 

– Talvez você não saiba, mas sesquicentenário pra cá, restos mortais pra lá, e o pau da ditadura comendo solto nas cadeias. Até a nossa presidente sofreu… Nunca lhe falaram?

 – Rapaz, nunca! Fico na cripta o tempo todo, e vejo o mundo passando em cima de mim. É difícil sair, você imagina. O cheiro… Às vezes me levanto bem cedinho, cinco da matina, para uma corrida no parque, uns alongamentos, ver as fontes. Isso aqui é lindo, hein?

 

– Foi mesmo para fazer cocô que parou nas margens plácidas? É verdade? Epa, o que é esse rolo de papel higiênico aí no seu bolso?!

 – Pá, é para não ser apanhado de surpresa. Naquele dia não sei o que comi de errado. Mas estava com uma dor de barriga que não me aguentava. Era muito, mas muito comilão. Eu voltava de um encontro com a Marquesa de Santos. No almoço ela fez bobó de camarão, tutu com torresmo, boi no rolete, pizza quatro queijos, frango com quiabo, peixe empanado e um pãozinho de alho que estava uma delícia.

 

 – Nada de sobremesa?

 – Rolou uma cervejinha de trigo, alemã. De doce ela fez pé de moleque, rocambole de goiaba e brigadeiro de colher. Mas acho que foi o café expresso, no final, que bagunçou o meu coreto.

 

– Aí você parou para ir à moita, e vieram lhe dar a notícia de que Portugal o havia rebaixado de posto, foi isso?

 – Foi, e fiquei uma arara, meu amigo. Eu ali, passando aquele mal, e os caras da terrinha avacalhando o meu pedaço. Subi no meu alazão…

 

– Pedro, apenas para ser fiel ao que corre à boca-pequena: dizem que não era um alazãozão, mas uma eguinha pangaré. E isso tem a ver, pois era muito mais forte para subir a Serra do Mar do que uma garbosa montaria.

 – Confesso e admito. Era uma eguinha muito querida, a Fofinha.

 

– Espere aí, por favor. A égua, essa égua que está na estátua, aqui bem em cima de nós, na qual vossa senhoria estava, naquele 7 de setembro, se chamava Fofinha…?! Fofinha?!

  – Sim. Tenho esse jeito, mas sempre fui um homem muito sensível.

 

 – Apesar de vários fatos que o exaltam, cá entre nós, foi uma sacanagem abdicar do trono. O povo tinha confiança em você, e aí se manda para Portugal, os filhos para trás. E deixando um trono nas mãos de um menino de cinco anos, o Pedrinho, o Segundinho… Lá longe, nem pensava no seu filho, que já não tinha mãe, e ficou sem o pai?! Você se arrepende?

 – Politicamente não, eu tinha que fazer isso. Mas como pai me dói ainda pensar nisso, e você feriu meu coração. Fico emocionado, não me controlo…

 

– Tudo bem, não precisa chorar, já se passou muito tempo. Pedrinho, o Segundinho, perdoou o pai. E ele foi outra figura, pai da Princesa Isabel, sua neta.

 – Minha querida netinha, que se casou com o Conde d’Eu… Que nome estranho esse, concorda? Conde d’Eu. Ele morreu dentro do navio, não foi? Por favor, se entrevistar meu Segundinho, diga a ele que o amo do fundo do coração, promete?

 

 – Avancemos. Outra pergunta, bem rápida: vejo que por baixo desse austero paletó preto você ostenta uma camisa do Botafogo.

 – Aprendi a amar o Botafogo. Tem a ver muito com essa pira aqui perto dos meus restos mortais e imperiais. Igual ao Botafogo, sou chama de fogo eterno, labareda que não se apaga, fogo indelével, fogueira incandescente.

 

 – Encerrando, Pedro, sei que está cansado. Nada de arrependimento?

 – De jeito nenhum. Começaria tudo outra vez… E tenho o apoio do povo heroico de quem ouvi o brado retumbante, e sei que o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria naquele instante.

 

– Mas esse é o Hino Nacional… Você compôs a música do Hino da Independência, o “Já podeis”. A letra é do Evaristo da Veiga, e é verdade que em determinado momento você dizia que a letra era sua? Que feio, ô, pá!

 – Tudo são cinzas, meu prezado jornalista. Tudo são cinzas. Se o fiz, não faço mais…

 

– Ainda bem que nesse tempo todo o Brasil continua sendo um sonho intenso, um raio vívido, que de amor e de esperança à terra desceu, não foi?

 – E lhe digo mais, meu amigo: no formoso céu, risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece.

 

– Fique tranquilo, Pedro, descanse em paz, porque o Brasil verá que um filho seu, seu dele, não foge à luta.

 – Que lindo! E nem teme, quem o adora, a própria morte. É uma terra adorada, entre outras mil…

 

– Valeu, Pedro. Valeu tudo o que aconteceu nestas plácidas margens.

 – Obrigado, e diga ao povo que fico… na cripta, à espera de uma visita.

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6 Comentários

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6 Respostas para “Diretamente da cripta! Depois de 190 anos, ele ressurge, ainda belo, e cantarola: “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor…”

  1. Marilia Balbi

    Ahahahahaha! Hilária entrevista e a foto do jornalista de D. Pedro, melhor ainda!!!!!

  2. rsrsrs só vc mesmo! muito bom!!!!

  3. Valéria de Brito Mello

    Excelente entrevista e muito esclarecedora. Não tenho mais dúvidas que a dor de barriga não foi emocional. “Segundinho” foi ótima sacada!! rsrs…

  4. Carla

    Guilherme adorei!A foto em especial.Bjo

  5. Como sempre, super criativo, parabéns.

  6. Ana Cláudia Garcia

    Adorei ô, pá!

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