Arquivo do mês: setembro 2012

Vou transferir meu título para Ipatinga. Afinal, a Márcia Leal, minha querida prima, é candidata a vereadora. Seu lema não poderia ser melhor: educação é cidadania!

Imagem

A Márcia, minha prima, é a da esquerda, ao lado da Cecília, candidata a prefeita.

Mas ela se chama Márcia Cristina Leal Henrique e é prima?A explicação remonta à história familiar, que começa no interior das Gerais, na queridíssima cidade que tem o nome de Urucânia, origem da família da qual a Márcia e este seu primo fazem parte. Pois bem. Naquele tempo (se acontece hoje, imaginemos há 40, 50 anos…), nomes e sobrenomes se confundiam. O avô, Raimundo Henrique da Silva, era casado com Teresa Salgado, a avó. Do casal nasceram vários filhos, entre eles o pai da Márcia, Raimundo Henrique Filho, o querido tio Totoca, e Conceição Salgado, irmã dele, minha querida mãe. E a mistura de sobrenomes se deu com os demais filhos: os homens recebiam o sobrenome do pai, as mulheres o sobrenome da mãe. Daí, o “Henrique” do pai da Márcia acabou virando sobrenome. Portanto, Márcia Leal (sobrenome da mãe dela, tia Dalva, guerreira e incansável mulher, a quem admiro muito) Henrique. Juntando tudo em uma bela e saudável salada de frutas, eis Márcia Cristina Leal Henrique. Do meu lado, herdei o Salgado da minha mãe e o Rocha do meu pai. Mas agora, feitas as explicações, importa mesmo é registrar que, apesar da distância (ela mora no Vale do Aço, em Minas, e eu em São Paulo), acompanho seu incansável trabalho em favor da educação. Uma luta que se estende por diversas vertentes, entre elas a defesa dos direitos dos trabalhadores da educação – salário digno e condições de trabalho justas, fundadas em investimento, apoio e democracia.  É uma alegria, Márcia, uma alegria e uma honra tê-la como prima, e agora nessa virtuosa vereda política (e bem-sucedida, não tenho dúvida). Incorrem em grande equívoco os que dizem que não gostam de política. Quanto maior o número de homens e mulheres que dizem que não gostam de política, mais facilmente serão governados por aqueles que também não gostam de política, mas gostam de enganar, tripudiar e corromper.

 – Bem, feitas as apresentações, vamos à candidata… Márcia, bem objetivamente, por que deseja ser vereadora em Ipatinga?

– Se puder resumir essa vontade, digo que meu desejo real é construir um mandato coletivo para fazer acontecer o controle social sobre os atos da administração. Moro no Vale do Aço desde 1979, conheço a região e seus problemas. E lutarei muito, cotidianamente, pela educação, razão de ser da minha vida social.

– Você tem quantos anos?

– Estou com 47 anos, tenho três filhos.

– Conte um pouco da sua história. É importante, pois não começou agora… Ou seja, uma luta de muitos anos.

– Desde 1981, Guilherme, estou na educação pública, como professora de Português nas redes estadual e municipal. São mais de 30 anos em sala de aula, um contato permanente com os problemas da educação. Atualmente sou diretora licenciada do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais, subsede de Ipatinga. Já me aposentei, mas permaneço atuante nas frentes de luta em defesa da educação.

– E ainda encontrou tempo para estudar Direito…

– Eu me formei em Direito, mas não sem esforço, confesso. O resultado pessoal, entretanto, é muito grande, e o coletivo igualmente, pois o curso ampliou a visão sobre a luta, sobre os direitos dos trabalhadores, o direito de quem sofre; afinal, o direito dos mais pobres.

– Voltando à candidatura. O que pensa do Legislativo,  a importância da Câmara dos Vereadores?

– As duas funções mais importantes da Câmara são, sem dúvida, propor leis que atendam àqueles que mais precisam, e fiscalizar os atos do Executivo. Esse é o ponto de partida, a essência de um trabalho parlamentar honesto e eficiente. E a isso acrescento o compromisso, firmado em nossa campanha, de zelar pelo cumprimento do programa de governo da nossa candidata a prefeita, Cecília Ferramenta. Um programa construído a muitas mãos, que traduz as necessidades e expectativas da população de Ipatinga. Estou plenamente convencida de que a execução das ações contidas em nosso programa de governo garantirá que o poder público cumpra o seu papel, oferecendo a Ipatinga uma prestação de serviços públicos de qualidade, na educação, na saúde e na assistência social.

– É importante elogiar e destacar o seu slogan. Na verdade, parabéns por ter escolhido um eixo central da campanha tão essencial, imprescindível, que nada mais é do que a continuação, na Câmara dos Vereadores, de uma luta que dura muitos anos.

– Estes anos todos, meu primo, sempre desejei desenvolver um projeto de mudança social a partir da educação. Sempre mesmo. E tendo como princípio fundamental a luta pela garantia de um ensino público de qualidade. Daí, veio a escolha do slogan “Educação é Cidadania”. Iniciei a carreira de professora na década de 80, e era um momento de efervescência da organização da classe trabalhadora, o que naturalmente implica envolvimento profundo com a luta em defesa da educação. Luto decidida e intransigentemente por um projeto educacional que se traduz na conformação de uma escola pública de qualidade social e que respeita os conceitos que promovem a cidadania e constroem um mundo melhor a partir da educação.

– Márcia, pelo que estávamos conversando antes da entrevista, a sua candidatura está muito ligada à da Cecília, candidata a prefeita. Como não moro em Ipatinga, desejo saber o porquê.

– É fundamental a eleição da Cecília. O PT, nos 16 anos em que esteve à frente do governo municipal, demonstrou competência total e absoluta para administrar Ipatinga. A eleição de Cecília é a recuperação de um governo que deu certo, que fez a diferença ao apoiar e estimular a organização popular. Temos um programa de governo que, indiscutivelmente, reúne as melhores propostas para nossa querida Ipatinga. Estamos todos empenhados em elegê-la prefeita. Ipatinga voltará a trilhar o caminho da dignidade e da competência administrativa.

– Márcia… Será que dá tempo de correr e votar em Ipatinga? Voto aqui no Haddad, pego o trem, mando o maquinista colocar lenha no fogo, corro e voto em você para vereadora…!!!

19 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Neste fim de semana, para aliviar dores, maus humores e frustrados amores, chega a primavera!

O blog é sensível. Gosta da natureza, ama os animais, é devoto de São Francisco de Assis, admira as flores pelas ruas. E enganado está quem afirma que São Paulo é somente concreto e é apenas cinza. São Paulo é primavera, a estação e a planta, a bela planta que dá a flor. Portanto, eis aqui a entrevistada do blog. A foto que (lindamente) ilustra a entrevista foi tirada pela Sonia (ela mesma já uma exuberante flor morena), às 14h de quinta-feira, dia 20 de setembro, na rua José do Patrocínio, 421, Edifício Hila, mais ou menos na divisa entre Aclimação e Vila Mariana.

– Antes de começar a falar de você, me diga quem é essa figuraça aí da foto…

– Coloca figuraça nisso. É o Antônio Azevedo Pereira, porteiro do prédio aqui onde fui plantada. Ele nasceu em um sítio, na cidade de Pedra Branca, Ceará. Gente boa o Antônio. Cuida muito bem de mim. Aprendeu com o pai dele, Manoel, que morreu há uns dois anos. O sô Manoel ficava indignado quando via a meninada com estilingue matando passarinho.

– Ô, buganvília, você é muito linda, hein?! De verdade… Mas para terminar sobre o Antônio. Ele parece que faz questão de exibi-la a quem fica admirado com a sua (a sua sua, não a sua dele) beleza.

– O querido Antônio trabalha há 16 anos aqui no prédio.

– Diga uma coisa. Por que esse seu nome? Fale mais de você.

 – Meu nome no RG, na carteira de identidade, é bougainvillea glabra choisy. Minha família se chama nyctaginaceae, é mole? E mais: meu nome é uma homenagem a um francês, sabia?

– Blog também é cultura, moça. Ele se chamava Louis Antoine de Bougainville, era um navegador e escritor francês, que viveu de 1729 a 1811. Aí, em 1766…

– Epa, você sabe tudo sobre mim…!

– Claro. Em 1766 ele recebeu de Luís XV a missão de navegar ao redor do globo. Esteve no Rio de Janeiro em 1767 e se apaixonou por você. A paixão foi tanta que em homenagem a ele deram à planta o nome de bougainville, depois aportuguesado para buganvília. E daí, aqui em São Paulo, você é conhecida pelo lindo nome de primavera…

– Estou meio encabulada.

– Obrigado por nos dar anualmente esse belíssimo presente que são as suas cores.

Vale um versinho, posso?

Se a tristeza não lhe dá canja, encante-se com a buganvília laranja;

Se uma pendenga não lhe sai da telha, embeveça-se com a buganvília vermelha;

E se está amargurado por conta de alguma querela, está resolvido, extasie-se com a buganvília amarela…

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Mergulhar na estrada e percorrer a alma. Gustavo Abade: 541 quilômetros no Caminho da Fé.

Imagem

De São Carlos a Aparecida, passo a passo, mochila nas costas, sonho no coração, curvas, rios e montanhas. Solidariedade e encontros carregados de emoção, que culminaram na chegada ao Santuário, diante da imagem, depois do último quilômetro percorrido ao lado da mulher, Patrícia, que está com ele na foto, no dia 7 de setembro. Figura querida, entre outras atividades ligadas ao esporte, Gustavo coordena um grupo de corridas, da Equipe Branca, que se reúne no Museu do Ipiranga duas vezes por semana.

 – E aí, professor…? Não é mole, parabéns. Para não haver dúvidas, 541 quilômetros são 541 km, também conhecidos como 541 mil metros. É metro que não acaba mais. Vamos começar a caminhar aqui na entrevista. Seu nome todo, por favor…

 – Sou Gustavo Neves Abade, nascido em Santos, no dia 14 de agosto de 1975. Bacharel em Esportes pela USP, hoje sou treinador de corridas e empresário.

– Explique o que é o Caminho da Fé.

 – Trata-se de um conceito de caminho de peregrinação baseado no Caminho de Santiago de Compostela, que chega à cidade espanhola. O nosso Caminho da Fé tem algumas peculiaridades. Em primeiro lugar por ser um caminho de devoção à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. O final dele se dá em frente à imagem de Nossa Senhora, no Santuário, em Aparecida do Norte. O nosso foi criado por peregrinos do Caminho de Santiago, que resolveram fazer o mesmo no Brasil – Almiro Grings, Clóvis Tavares de Lima e Iracema Tamashiro.

 – Você começou a percorrê-lo em São Carlos, não foi?

 – Inicialmente ele começava na cidade de Águas da Prata, em São Paulo, na divisa com Minas Gerais, passando por várias cidades do sul mineiro, pela Serra da Mantiqueira, retornando a São Paulo por Campos do Jordão, descendo a serra para a cidade de Pindamonhangaba, chegando a Aparecida. Esse percurso inicial era de aproximadamente 354km.

– Subiram a rodagem para 500 e tantos…

 – O Caminho da Fé vai fazer dez anos em 2013. Com o passar dos anos foram acrescidos pontos iniciais, com novas rotas, até chegar ao início original em Águas da Prata. Hoje, pode se iniciar o Caminho em quatro pontos diferentes: Cravinhos, Mococa, Divinolândia e São Carlos.

 – Você escolheu o mais longo. Por quê?

 – O meu namoro com o Caminho começou em 2009, quando fui dar apoio a alguns alunos de nossa assessoria em uma corrida que é feita em parte do Caminho, na BR-135. Era uma ultramaratona de 217km. Depois de dois anos indo à prova apoiar e ajudar, no ano passado resolvi fazer a prova na categoria solo. Mas não completei a ultramaratona. Este ano, 2012, me inscrevi novamente e completei a corrida, no primeiro semestre. Mas as montanhas continuavam me chamando, e queria muito conhecer o Caminho todo e não somente os 217km.

 – Percorrê-lo de outro modo, sem pressa.

 – Isso, viver a essência de uma peregrinação, sobre a qual só tinha lido ou conversado a respeito. Fazê-lo como deve ser feito, com a mochila nas costas, caminhando, não correndo com uma equipe de apoio de carro, vencendo o relógio. Queria caminhar sem pressa. A vontade sempre existiu, mas executá-la era algo mais difícil, pois tinha que achar tempo na minha vida muito corrida, e fazer o caminho todo. Foi então que no final de junho decidi: vou fazer o meu tempo, e marquei a data de início para dia 23 de agosto, e fui com tudo.

– Reflexão individual, orações…

 – Momento de passar mais tempo comigo mesmo, reflexão da minha vida, equilibrar o que estava desequilibrado e agradecer as muitas conquistas que tenho ao longo da vida. As montanhas me chamavam…

 – Você é uma pessoa de fé?

 – Sou de uma família de formação católica, fiz até a Primeira Comunhão. Porém, por muito tempo me considerei agnóstico, sempre achando que precisava de uma concretude que me levasse a crer em algo maior. Mas com o tempo percebi que sou um homem de fé; tenho muita fé nas pessoas, tenho muita fé em mim, e tenho fé que nada disso era por acaso. Portanto, nada mais certo que enfrentar o Caminho da Fé até mesmo para esclarecer essas questões pessoais.

– Isso impressiona, pois normalmente quando se tira férias as opções são: a – três dias naquela coisa bem “original” de ir para Orlando; b – lugares “bem pouco” conhecidos, como Buenos Aires, Aruba ou Cancún; c – ou ir a Nova York e ficar desfilando com a camiseta I “um coração” New York. Macaquice pura…

 – Tirar férias é um pouco difícil para profissionais liberais. Mas precisava puxar o freio de mão por um período. Minha mulher não poderia parar de trabalhar nesse período, portanto, o caminho fazia ainda mais sentido. Falar sobre ele seria muito extenso e pretensioso, pois o Caminho não se explica, o Caminho se vive. Como não se pode julgar ou quantificar fé e crenças, que não são questões matemáticas.

– Carregado de emoção…?

 – Muitas. Fazer essa peregrinação é sentir tudo na pele, o gosto, a respiração curta sem razão e a vontade de chorar sem motivos. O Caminho é mágico pela sua geografia, mágico pelas pessoas. Tive a oportunidade de conhecer um Brasil verdadeiro, sem maquiagens, um Brasil puro e simples. Dormi na casa de pessoas autênticas, cuja missão é ajudar o peregrino a percorrê-lo. Não é fácil conhecer pessoas que apenas o acolhem para ajudá-lo a seguir em frente.

– Um momento mais especial?

 – Houve muitos. Todos, na verdade. Mas uma das passagens que mais me marcaram foi a paisagem que tive entre Luminosa e Campos de Jordão. Após ter subido uma serra muito dura, chego ao topo, e sou recompensado com a mais bela vista que tive na vida: uma neblina seguia pelas montanhas abaixo de mim, como um rio em uma planície embaixo de um céu azul, em volta do verde das montanhas. Na verdade, em volta dos verdes das montanhas, pois são múltiplos. Naquele momento, a única reação que tive foi chorar. Chorei por saber que sou pequeno diante daquela paisagem, e me senti presenteado, pois ali o agnóstico teve a explicação que existia algo muito maior do que eu. A comprovação era sentida na pele e no gosto das lágrimas.

– Sem palavras. Continuemos andando…  

 – Outro caso marcante era conhecer pessoas simples e de fé que me encontravam, e apenas me pediam para agradecer ou fazer um pedido a Nossa Senhora quando chegasse ao Santuário. E as palavras de despedida eram sempre: “Vai com Deus e que Nossa Senhora te acompanhe”. Eu sempre respondia: “Você também fique com Deus e tenha sempre um bom dia!”.

 – No último quilômetro a Patrícia, sua mulher, o acompanhou…

 – Percorri o caminho em 16 dias. Tive a alegria e a emoção de fazer o último quilômetro com a minha amada mulher, a Patrícia, pois não fazia sentido chegar sozinho, tinha que chegar com a pessoa mais importante de minha vida. Confesso que quando cheguei em frente à imagem, chorei como o mais devoto de Nossa Senhora, e tive uma prosa grande para atender a todos os pedidos recebidos e guardados pelo Caminho.

– E a entrega tinha que ser feita sem enganos…

 – Acabei mesmo virando o transporte de fé de muitas pessoas, e como um carteiro tinha que entregar a encomenda de maneira correta. Peregrinação é passagem, é transformação. Há um momento na vida no qual todos precisamos nos transformar. Hoje posso assumir que sou um homem de fé.

– Gustavo, excelente, de verdade, excelente a entrevista.

 – Tudo veio do coração e da emoção. E quando as palavras se originam no coração, o caminho da vida fica bem mais fácil…

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Diretamente da cripta! Depois de 190 anos, ele ressurge, ainda belo, e cantarola: “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor…”

Imagem

Nosso entrevistado semanal atende pelo simpático nome de Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon

 

 – Boa tarde, Pedro. Permita-me chamá-lo somente de Pedro?

 – Sem problemas, ô, pá! Depois de tanto tempo, ao contrário do que diz o povo, mesmo tendo sido rei, perdi um pouco a majestade.

 

– Nem tanto, esteja certo. Você ainda ostenta um semblante régio. E está muito bem aqui na foto tirada pela Mariângela Alcântara Rodrigues, a Mariângela, casada com o Odair, lembra-se dela? Opa, Alcântara?! Claro, ela é sua tritataraneta, naquele seu ramo imperial de São José dos Campos. Mas mais importante, Pedro, que é pedra, folgo em vê-lo álacre, como diz um grande amigo, o Tuca, de Niterói. Conhece o Tuca?

 – Não, não tive o prazer. Vamos deixar de prolegômenos. Sigamos às perguntas, ora, pois…

 

 – Perdão, não quero tomar seu tempo, apesar da eternidade. O que acha de a conversa ser aqui, bem perto da cripta, onde repousam seus reais restos mortais?

 – Moro perto do riacho do Ipiranga desde que para cá vim, no sesquicentenário da Independência. Lembra-se da musiquinha? Esse Brasil faz coisas, que ninguém imagina que faz/Sesquicentenário, e vamos mais e mais, na festa do amor e da paz.

 

– Talvez você não saiba, mas sesquicentenário pra cá, restos mortais pra lá, e o pau da ditadura comendo solto nas cadeias. Até a nossa presidente sofreu… Nunca lhe falaram?

 – Rapaz, nunca! Fico na cripta o tempo todo, e vejo o mundo passando em cima de mim. É difícil sair, você imagina. O cheiro… Às vezes me levanto bem cedinho, cinco da matina, para uma corrida no parque, uns alongamentos, ver as fontes. Isso aqui é lindo, hein?

 

– Foi mesmo para fazer cocô que parou nas margens plácidas? É verdade? Epa, o que é esse rolo de papel higiênico aí no seu bolso?!

 – Pá, é para não ser apanhado de surpresa. Naquele dia não sei o que comi de errado. Mas estava com uma dor de barriga que não me aguentava. Era muito, mas muito comilão. Eu voltava de um encontro com a Marquesa de Santos. No almoço ela fez bobó de camarão, tutu com torresmo, boi no rolete, pizza quatro queijos, frango com quiabo, peixe empanado e um pãozinho de alho que estava uma delícia.

 

 – Nada de sobremesa?

 – Rolou uma cervejinha de trigo, alemã. De doce ela fez pé de moleque, rocambole de goiaba e brigadeiro de colher. Mas acho que foi o café expresso, no final, que bagunçou o meu coreto.

 

– Aí você parou para ir à moita, e vieram lhe dar a notícia de que Portugal o havia rebaixado de posto, foi isso?

 – Foi, e fiquei uma arara, meu amigo. Eu ali, passando aquele mal, e os caras da terrinha avacalhando o meu pedaço. Subi no meu alazão…

 

– Pedro, apenas para ser fiel ao que corre à boca-pequena: dizem que não era um alazãozão, mas uma eguinha pangaré. E isso tem a ver, pois era muito mais forte para subir a Serra do Mar do que uma garbosa montaria.

 – Confesso e admito. Era uma eguinha muito querida, a Fofinha.

 

– Espere aí, por favor. A égua, essa égua que está na estátua, aqui bem em cima de nós, na qual vossa senhoria estava, naquele 7 de setembro, se chamava Fofinha…?! Fofinha?!

  – Sim. Tenho esse jeito, mas sempre fui um homem muito sensível.

 

 – Apesar de vários fatos que o exaltam, cá entre nós, foi uma sacanagem abdicar do trono. O povo tinha confiança em você, e aí se manda para Portugal, os filhos para trás. E deixando um trono nas mãos de um menino de cinco anos, o Pedrinho, o Segundinho… Lá longe, nem pensava no seu filho, que já não tinha mãe, e ficou sem o pai?! Você se arrepende?

 – Politicamente não, eu tinha que fazer isso. Mas como pai me dói ainda pensar nisso, e você feriu meu coração. Fico emocionado, não me controlo…

 

– Tudo bem, não precisa chorar, já se passou muito tempo. Pedrinho, o Segundinho, perdoou o pai. E ele foi outra figura, pai da Princesa Isabel, sua neta.

 – Minha querida netinha, que se casou com o Conde d’Eu… Que nome estranho esse, concorda? Conde d’Eu. Ele morreu dentro do navio, não foi? Por favor, se entrevistar meu Segundinho, diga a ele que o amo do fundo do coração, promete?

 

 – Avancemos. Outra pergunta, bem rápida: vejo que por baixo desse austero paletó preto você ostenta uma camisa do Botafogo.

 – Aprendi a amar o Botafogo. Tem a ver muito com essa pira aqui perto dos meus restos mortais e imperiais. Igual ao Botafogo, sou chama de fogo eterno, labareda que não se apaga, fogo indelével, fogueira incandescente.

 

 – Encerrando, Pedro, sei que está cansado. Nada de arrependimento?

 – De jeito nenhum. Começaria tudo outra vez… E tenho o apoio do povo heroico de quem ouvi o brado retumbante, e sei que o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria naquele instante.

 

– Mas esse é o Hino Nacional… Você compôs a música do Hino da Independência, o “Já podeis”. A letra é do Evaristo da Veiga, e é verdade que em determinado momento você dizia que a letra era sua? Que feio, ô, pá!

 – Tudo são cinzas, meu prezado jornalista. Tudo são cinzas. Se o fiz, não faço mais…

 

– Ainda bem que nesse tempo todo o Brasil continua sendo um sonho intenso, um raio vívido, que de amor e de esperança à terra desceu, não foi?

 – E lhe digo mais, meu amigo: no formoso céu, risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece.

 

– Fique tranquilo, Pedro, descanse em paz, porque o Brasil verá que um filho seu, seu dele, não foge à luta.

 – Que lindo! E nem teme, quem o adora, a própria morte. É uma terra adorada, entre outras mil…

 

– Valeu, Pedro. Valeu tudo o que aconteceu nestas plácidas margens.

 – Obrigado, e diga ao povo que fico… na cripta, à espera de uma visita.

6 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Mara Kotscho: a meditação como prática cotidiana

Imagem

Meditar, para a socióloga, tem, entre diversos benefícios, a conquista do autocontrole, na absoluta confiança em Deus

 

Onde você nasceu?

 Meu nome completo é Maria Carmen Nogueira Kotscho (ou Mara Kotscho). Nasci em São Paulo, capital, no dia 14 de fevereiro de 1953. Sou casada há 40 anos com o jornalista Ricardo Kotscho. Temos duas filhas e quatro netos.

 

 E sobre a sua “trajetória” espiritual? 

 Já em criança tinha formação católica, e sempre tive muita fé. Nunca duvidei da existência de Deus, de uma força maior que nos governa e orienta. Mas, apesar de ter estudado em colégio de freiras, nunca fui muito de ler a Bíblia, que confesso, a meu ver, tem uma linguagem muito hermética, difícil de entender. E participo de um Grupo de Oração, bastante eclético e ecumênico, desde 1980.

 

 Como a meditação entrou em sua vida?

 Há mais ou menos 30 anos li um livro chamado “Autobiografia de um Yogue”, de  Paramahansa Yogananda, com o qual muito me identifiquei e que despertou em mim a vontade de conhecer mais e melhor a Kriya Yoga, uma linha de yoga voltada exclusivamente para o desenvolvimento espiritual. Trata-se de “uma técnica científica para se obter a autorrealização em Deus, pela percepção pessoal e transcendente que o homem alcança de seu Pai Infinito”.

 

 Fale mais sobre Yogananda, por favor.

 Paramahansa Yogananda é um mestre espiritual/guru hindu, que foi escolhido por seu mestre Mahavatar Bábají para divulgar a mensagem da Kriya Yoga no Ocidente. No começo do século passado ele fundou na Califórnia a Self Realization Fellowship, uma escola de autorrealização em Deus que fornece cursos, palestras, encontros espirituais, literatura e outros materiais de divulgação da Kriya Yoga. Além do fato de ser um mestre iluminado, que orienta seus discípulos que escolhem o caminho da Kriya Yoga a conhecer e se unir a Deus, teve a importância histórica de promover a união entre o Ocidente e o Oriente na busca do aperfeiçoamento espiritual.

 

 Além dele, há outros líderes espirituais?

 Como não se trata de uma religião propriamente dita, a Self Realization Fellowship abarca os ensinamentos de líderes espirituais de várias religiões do mundo. Mas, como toda organização espiritual, ela tem uma hierarquia própria. Os meus líderes espirituais são os líderes espirituais da hierarquia da Self: Jesus Cristo, Krishna, Babají, Lahiri Mahasaya, Sri Yuktéswar e Pahamanansa Yogananda.

 

 Mara, quando você começou a meditar?

 Comecei a meditar quando tinha mais ou menos 25 anos. Mas, nessa época, não havia adotado, ainda, um caminho específico. Estava em busca de algo com que realmente me identificasse. Alguns anos depois de ter lido o livro de Yogananda, tive a oportunidade de ir à Califórnia e de conhecer alguns templos da Self, onde me inscrevi para fazer o curso, criado por Yogananda para orientar aqueles que escolhem esse caminho. Trata-se de um curso de três anos, por correspondência, que auxilia o discípulo a se preparar para essa busca, ensinando, inclusive, as técnicas de meditação específicas da Kriya Yoga. Durante o curso, a identificação com o Mestre e com as propostas da linha por ele adotada foi total e absoluta. Ao término das lições tudo isso me levou a solicitar a iniciação em Kriya Yoga, o que significa dizer criar um vínculo eterno com o Mestre Yogananda e todos os mestres da hierarquia (algo semelhante ao batismo na Igreja Católica). A partir daí, as técnicas de meditação que pratico são as recomendadas e ensinadas pela Self.

 

 Dentro de um dia a dia impressionantemente rápido, como vivemos, qual a importância da meditação em sua vida?

 Meditar para mim é tão vital como comer e respirar. Os benefícios da meditação, quando praticada regularmente, e independentemente do conceito que se tenha de Deus, são muito concretos e perceptíveis no curto prazo. Os mais imediatos são: aumento da capacidade de concentração, paz de espírito, tranquilidade, alegria de viver, ausência total de ansiedade, aumento da autoestima, para citar apenas alguns.

 

 Como se programa? Há horários fixos?

 Medito duas vezes por dia, cerca de 30 minutos cada vez. A meditação da manhã faço sempre numa igreja perto de casa. Trata-se de um lugar tranquilo, que me faz sentir mais perto do Divino. A da noite faço em casa mesmo, antes de dormir.

 

 A meditação independe da faixa etária? Para as crianças, por exemplo…

 Acho que para as crianças os benefícios são os mesmos obtidos pelos adultos. Dizem os entendidos que o estado de meditação é natural nas crianças. Geralmente elas interagem muito mais facilmente com as técnicas do que os adultos, que normalmente precisam superar os bloqueios e couraças acumuladas ao longo da vida. Acho que as crianças percebem os benefícios da meditação com a própria prática. No caso delas, é mais lúdica, mais parecida com uma brincadeira gostosa, só que mais séria.

 

O frei Betto mandou mensagem, pelo twitter, dizendo o seguinte: “Quem medita não se irrita”. Você concorda?

 Totalmente! Justamente porque a pessoa que medita regularmente adquire um autocontrole natural e sobre as coisas que a circundam. E tudo se torna relativo. Você passa, naturalmente, a não se desgastar com nada, porque a paz de espírito, a alegria de viver (ou, em outras palavras, a confiança em Deus), tornam-se maiores do que qualquer coisa que possa ameaçar. Recentemente li uma frase parecida com essa do frei Betto: “A pessoa ansiosa ou que se preocupa demais com as coisas não acredita em Deus”. Se você depositar todas as suas preocupações nas mãos Dele e, por direito de herança (já que somos Seus filhos, feitos à Sua imagem e semelhança), Dele exigir a solução, não haverá por que se preocupar.

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized